Terça-feira, 03 de Fevereiro de 2026 Fazer o Login

O racismo é desumano

qui, 2 de agosto de 2018 05:33

Diomar Freire

 Formado em filosofia

No poema épico da “Ilíada”, conta Homero que Menelau, revoltado com o procedimento leviano de Helena, a mais bela mulher grega, chegava algumas vezes perto dos muros de Tróia, jurando que um dia, havia de matá-la. A cidade de Príamo foi tomada pelos guerreiros e a primeira providência do grego amoroso foi correr em busca da esposa.

A beleza é a força mais poderosa que a mulher possui para conquistar o homem e, também, para restabelecer o laço amoroso.

A beleza, o bem e a verdade são as três faces da harmonia universal. Os escritores romancistas elevam a formosura feminina à personagem principal nos romances. Quem não se encanta com as belezas de Ana Karenina de Tostói, de Beatriz da Divina Comédia de Dante e Iracema de José de Alencar? O bem é um patrimônio universal que todos nós devemos ter e praticar. Essa pergunta, fazia-a eu a mim próprio, no silêncio da noite, lembrando das tragédias gregas e nazistas.

Espiritualista e católico sou, não acreditando de forma alguma possível que o ser inteligente, dotado de razão, de imaginação, possa desaparecer com a morte. Afonso Arinos fez o bem. Derrubou o muro da desigualdade social. O seu livro de memórias, “Alma do Tempo”, com 1.250 páginas, eu o colocaria, pelo que li, entre os melhores no Brasil.

Ele conta, nas memórias, que a legislação brasileira de 1946, tinha ignorado o racismo e o preconceito racial. Dois motivos levaram à apresentação do seu projeto em julho de 1950 na Câmara Federal. O primeiro foi a discriminação recebida pelo seu motorista particular, negro, de entrar em uma confeitaria em Copacabana, acompanhando a mulher e os filhos, devido à proibição imposta pelo proprietário.

O segundo, a bailarina negra americana Katherine que foi impedida de se hospedar no hotel em São Paulo para uma temporada no Teatro Municipal.

Ele apresentou o projeto no dia 7 de julho de 1950 e 3 de julho de 1951, era sancionada como lei pelo presidente Getúlio Vargas. A lei veio a ser conhecida como “Lei Afonso Arinos”. Mas há homens que nascem para fazer o bem. Afonso Arinos foi um deles. Deu-nos exemplos magníficos de patriotismo, idealismo, capacidade de luta, desprendimento, e, acima de tudo, amor ao próximo.

Na verdade, não conheço, pelo que li, na historia da humanidade uma família de origem intelectual igual à de Afonso Arinos. Tem mais de cento e cinquenta anos initerruptamente na área cultural.

O intelectual senador Virgílio de Melo Franco casado com dona Ana, teve os filhos: Afonso Arinos, que nasceu em 1868, em Paracatu-MG. Entrou na Academia Brasileira de Letras, ocupou a cadeira de nº 40. Escreveu obras literárias valiosas “Buriti Perdido” e “Pelo Sertão”. Aos 21 anos de idade, era professor concursado em História do Brasil e Direito criminal em Ouro Preto. Morreu aos 48 anos na Europa, em Barcelona, em 1916.

Seu irmão, Afrânio de Melo Franco, deputado federal, jurista, diplomata, ministro do exterior de Getúlio Vargas, na década de trinta, considerado um dos grandes intelectuais da época. Seu filho, Afonso Arinos de Melo Franco, autor da lei “Afonso Arinos”, deputado federal, senador, jurista, professor catedrático de Direito Constitucional, escritor, poeta, memorialista, ministro do exterior do governo Jânio Quadros, um dos maiores oradores do parlamento, pertenceu a Academia Brasileira de Letras, ocupou a cadeira de nº 25. Morreu em 30 de agosto de 1980.

O Deputado Ulisses Guimarães que foi seu colega na Câmara Federal disse: “Morreu um sábio”. Seu nome ficou incorporado como um dos melhores valores da política de todos os tempos. Nesta época de corrupção, de fraquezas de líderes, ele bem merece o epíteto horaciano: “integer vitae scelerisque purus”.

Seu filho Afonso Arinos de Melo Franco, foi deputado, escritor, jornalista, diplomata, é membro da Academia Brasileira de Letras, ocupa a cadeira de nº 17. A família é de procedência intelectual e honestidade. E os descendentes continuam horando a tradição na área cultural.

No ano de 2014, eu e minha esposa visitamos Afonso Arinos na academia; ele me ofereceu o retrato do pai, que orna a minha biblioteca. É um acadêmico simpático, atencioso, de uma cultura universal.

Nenhum comentário

Deixe seu comentário: