MINUTO DE OURO – 24 DE JULHO
sex, 24 de julho de 2026 08:00
A INFLAÇÃO DO PENTA ATÉ HOJE
“Inflação não é apenas aumento de preços. Ela altera o poder de compra, influencia investimentos, afeta o planejamento das empresas e muda a realidade financeira das famílias. Quem acompanha os indicadores toma decisões melhores.”
Em 2002, o Brasil parou para ver Ronaldo Fenômeno marcar duas vezes na final contra a Alemanha e conquistar o pentacampeonato mundial. Foi um ano de festa nas ruas — e, ao mesmo tempo, de um cenário econômico bem mais apertado do que a nostalgia costuma lembrar. Dólar disparado, Selic na casa dos 25% ao ano, inflação de 12,53% e um salário mínimo de apenas R$ 200,00. Passados 24 anos, vale a pena olhar os números com a calculadora na mão, não só com o coração.
Comecemos pelo País dos negócios. Em 2002, estima-se que o Brasil tivesse cerca de 1,4 milhão de empresas formalmente ativas. Hoje, segundo o Mapa de Empresas do Governo Federal, esse número saltou para 25.186.078 — um crescimento de 1.699% em pouco mais de duas décadas, uma média de quase 71% ao ano. Isso não é só efeito do MEI, embora ele explique boa parte da explosão: é o reflexo de um país que, apesar de toda burocracia, se reinventou empreendedorismo adentro. Aqui no Triângulo Mineiro, basta caminhar pelo centro de Araguari e comparar quantos CNPJs novos surgiram nos últimos anos — de prestadores de serviço a pequenos comércios — para sentir esse movimento na prática.
O salário mínimo, por sua vez, saiu de R$ 200,00 em 2002 para R$ 1.621,00 em 2026: alta de 710,5%, média de 29,6% ao ano. Parece generoso, até você colocar ao lado a gasolina, que subiu de R$ 1,77 para R$ 6,10 — variação de 244,63%. Ou seja: o combustível, mesmo tendo subido bem menos que o salário mínimo em termos proporcionais, continua pesando mais no bolso do trabalhador comum, porque o custo de vida como um todo não andou na mesma velocidade dos reajustes.
E aqui entra o detalhe que sempre repito nas minhas conversas com clientes: preço nominal não conta a história toda. A cesta básica, por exemplo, saiu de R$ 181,01 para R$ 674,12 — alta de 272,42%. O pão francês multiplicou por cinco (405,26%), o botijão de gás foi de R$ 27,00 para R$ 105,00 (288,89%). Todos esses itens, ironicamente, subiram menos, em percentual, do que o salário mínimo. Isso quer dizer que, no papel, o poder de compra do trabalhador que ganha o piso melhorou nesses 24 anos — mesmo que a sensação no dia a dia seja de aperto.
Agora, o carro-chefe da comparação regional: o Fiat Uno 2002, carro de entrada da época, custava R$ 13.990,00. Hoje, o equivalente em categoria — um Mobi Like — sai por R$ 70.000,00, alta de 400,36%. Aqui sim o consumidor perde terreno frente ao salário mínimo: o carro popular ficou proporcionalmente mais caro do que o poder de compra do trabalhador cresceu. Quem comprou terreno em vez de carro, aliás, provavelmente saiu na frente — mas essa é conversa para outra coluna.
O ponto que mais chama atenção, porém, é o tamanho do Estado. Em 2002, a arrecadação tributária brasileira foi de R$ 473,84 bilhões. Em 2025, bateu recorde histórico de R$ 2,887 trilhões — alta de 509,28%, média de 21,22% ao ano, bem acima da inflação e também acima do crescimento do salário mínimo. A carga tributária, que era de 34,9% do PIB em 2002, chegou a 32,4% do PIB em 2025 pela métrica do Governo Geral — ou seja, mesmo com pequena oscilação percentual sobre o PIB, o valor absoluto que sai do bolso do contribuinte para os cofres públicos cresceu de forma muito mais acelerada do que qualquer um dos indicadores de consumo que vimos acima.
É esse contraste que interessa ao contador em mim: o Brasil ficou mais empreendedor, o salário mínimo ganhou poder de compra relativo frente à maioria dos itens básicos, mas o Estado cresceu mais rápido que tudo isso junto. Antes de comemorar ou lamentar qualquer número isolado, o exercício certo é sempre esse: comparar percentual com percentual, ano com ano, e nunca confiar só na saudade. A inflação do penta não parou em 2002 — ela só mudou de forma, e quem entende os números sai na frente para se planejar.
Rodrigo Almeida Rodrigues – CEO Fundador Seu Bpo Soluções de Negócios
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