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Integrantes do Movimento “Somos Todos Colônia” participam de reunião na casa legislativa

sáb, 2 de novembro de 2019 05:29

Laura Alvarenga

Cinco homens e uma história em comum. Representada pelo movimento “Somos Todos Colônia”, o grupo dá voz a cerca de dois mil mineiros que foram afastados dos pais em virtude da hanseníase, vulgarmente conhecida como lepra.

Valmir Batista, Mozart Rosa da Silva, Ronaldo Fernandes, José Cláudio Guimarães e Santos Batista, fazem parte dos 16 mil brasileiros que passaram pela mesma situação entre as décadas de 1920 e 1980. O caso aconteceu em um dos marcos legais da política de isolamento, estabelecida através da Lei nº 610 de 1949, a qual orientava a separação compulsória e imediata dos filhos daqueles pais isolados por hanseníase. De acordo com dados do Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan) estimativas oficiais apontam que mais de 14 mil filhos separados ainda estejam vivos.

Em reunião no gabinete do presidente da Câmara Municipal, Wesley Lucas de Mendonça (PPS) e com a participação do vereador Giulliano Sousa Rodrigues (PTC) na manhã desta sexta-feira, 1º, o grupo relatou brevemente sobre as experiências vividas na época, bem como, a esperança de que o Estado de Minas Gerais reconheça os danos causados e cumpra com a promessa de reparo e indenização.

Detalhes sobre indenização proposta pelo Estado serão discutidos durante audiência pública

Detalhes sobre indenização proposta pelo Estado serão discutidos durante audiência pública

 

À época, a Lei obrigava que todos os filhos de pais que fossem diagnosticados com hanseníase fossem enviados ao educandário mais próximo da região, não importando se eram recém-nascidos ou crianças com certa idade. Por outro lado, os doentes eram isolados em uma colônia com a promessa de receberem tratamento adequado, contudo, muitos morriam sem a família ter conhecimento.

O lar preventivo que mais abrigava crianças no Brasil e no mundo se encontrava em Araguari. Lá eles recebiam dois trajes, um para trabalhar e outro para o momento de descanso. Os jovens eram obrigados a fazer todo tipo de serviço manual independente da idade.  Sendo uma Organização Não Governamental (ONG) que abrigava essas crianças em decorrência de uma determinação do Estado, o governo de Minas Gerais deveria auxiliar na manutenção do local. O grupo relatou que um caminhão se dirigia ao abrigo uma vez ao mês contendo mantimentos que deveriam alimentar cerca de 300 crianças, no entanto, nem sempre isso acontecia, e estes, tinham que se adequar com o que era produzido no local.

Ronaldo Fernandes reforça que a atual movimentação acontece no intuito de promover essa comoção e sensibilizar a sociedade civil à causa. “A luta não é de agora, ela tem um histórico e nós estamos avançando. O Estado de Minas é o primeiro da federação que reconheceu a causa dos filhos. É sabido que a causa dos portadores, num dado momento pregresso, teve o reconhecimento, e hoje, os portadores recebem do Estado um valor para subsistência. E aí, a partir do momento que houve o avanço na questão dos portadores, nós nos mobilizamos para que houvesse também o reconhecimento aos filhos, porque é a outra ponta da questão.”

Ronaldo também contou que até a década de 1970, eram acolhidos filhos de leprosos no lar preventivo. Porém, a partir de meados da década de 75, o local começou a ter multi funções. Ele passou a acolher meninos em situação de rua e adolescentes com problemas de convivência social em convênio com a Fundação Casa, anteriormente chamada de Febem.

Os egressos do “Somos Todos Colônia” ressaltaram os danos psicológicos marcados pela fama da doença. A sociedade tinha certo preconceito com pessoas diagnosticadas com hanseníase, por acreditarem que a doença poderia ser contraída apenas pela proximidade com algum infectado. A crença marcou a vida de muitos jovens que, mesmo após saírem do educandário, não conseguiram alcançar um objetivo na vida devido às sequelas psicológicas.

“Essa página foi esquecida e está rasgada da história. Nós queremos resgatar isso, mas com o intuito de envolver as autoridades constituídas a partir de Araguari. Nós precisamos que a lei seja cumprida minimamente de maneira que ela provoque Justiça.”

Em decorrência de todas as dificuldades vividas e marcadas na história do país, foi determinado que o governo fizesse o pagamento de uma indenização a esses filhos, como forma de reconhecimento e tentativa de reparo. Contudo, estes egressos acreditam que o valor proposto não condiz com a realidade.

Sendo assim, o vereador Wesley Lucas irá promover uma audiência pública no plenário da Câmara Municipal, no intuito de debater a situação. “Nosso papel é justamente criar um documento oficial da Câmara e que seja dirigido ao governo do estado de Minas Gerais para que possa fazer pelo menos, as reparações mínimas, mas que seja cumprido o que a lei determina.”

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