Ficha Técnica – Quando o filme de terror vira conto de fadas
qua, 3 de agosto de 2016 05:24
Rio de Janeiro, manhã de sexta-feira, 29 de julho. No terminal de voos domésticos do Aeroporto do Galeão, passos do um sonho real. Com o portão de desembarque ao fundo, Anjelina, Rose, Yiech, James e Paulo acenam para o horizonte. Credenciais com foto remetem ao valor de gente acostumada a lidar com o esquecimento. A exaustiva viagem e os demônios do passado jamais sonegariam o sorriso daqueles rostos. “Estamos seguros” – desabafa um deles.

Time de refugiados em visita ao Cristo Redentor
*AFP
Os cinco passageiros que chegaram do voo do Quênia com escalas na África do Sul e em São Paulo integram o primeiro Time Olímpico de Refugiados da história. Eles se juntam a outros cinco nomes para as competições de natação, atletismo e judô. Atletas que num passado não muito distante eram testemunhas de guerras civis no Sudão do Sul, que matou mais de 50 mil, na Síria, que tirou a vida de quase 500 mil e no Congo, com mais de 5,4 milhões de mortos até então.
No Rio, os atletas refugiados na Europa desfilarão logo após a delegação brasileira na Cerimônia de Abertura. Não haverá hino nacional, bandeiras ou uniformes de seus países. Mas certamente carregarão um lembrete óbvio, quase desenhado para que o mundo possa de uma vez por todas entender. “Sim, nós também somos humanos”.
Tímidos, extrovertidos, vaidosos e singelos. São jovens que num dia estavam nas aulas de história, ciências e matemática, e noutro fugiam para escapar de bombas, entrar em botes salva-vidas e pular em alto mar para resgatar quem sequer conheciam. Conjugar, no mais deturpado espírito esportivo, os verbos nadar, correr e proteger. Mais que atletas olímpicos, são sobreviventes.
Dia desses uma lenda chamada Ayrton Senna, que jamais disputou uma Olimpíada, tampouco vivenciou os castigos da guerra, disse que por meio do amor, da fé e determinação, um dia chegaríamos lá. No Aeroporto do Galeão no Rio, os heróis anônimos chegaram, e por um mês competirão ao lado de seus ídolos. Longe do medo, do horror e da humilhação. Protagonistas de uma história de luta. Num roteiro campeão de bilheteria, o filme de terror se tornou conto de fadas, onde a glória está no direito de sorrir em paz.
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