Ficha Técnica – Luto de Dona Joana
qua, 28 de outubro de 2015 08:24
O bar da Dona Joana jamais amanheceu tão triste. Os quadros que estampavam um bocado de histórias não pareciam mais lembrar tantas glórias. Nem o combo de pão de queijo e café vendeu tanto como de costume naquela manhã. Torcedora fanática, ela sentia o peso de uma goleada. Um cliente, preocupado, indagou o motivo de tamanho pranto, e engoliu a resposta – “No país da intolerância e da carteirada, a hipocrisia e a ganância fazem mais filhos que o mister Catra”.

Sem Zico na Fifa, ainda há esperança para um futebol limpo?
Dona Joana é dos tempos de Garrincha e Pelé, mas nada lhe marcou tanto quanto a seleção de 1982. O choro de uma criança brasileira estampada no Jornal da Tarde. A sensação de impotência por não poder ajudar aqueles 11 jogadores que encantavam o mundo. Nem um frustrante amor de faculdade, ou a chegada da terceira idade, machucavam tanto.
Negra, valente e batalhadora. Numa mistura de Paulo César Caju e Nina Simone, os cabelos afro escondem uma mulher que lutou muito para conseguir um lugar ao Sol. Eterna amante do esporte bretão, Dona Joana gosta da proporção que o futebol ganhou, mas condena as chuteiras coloridas, estádios chamados de arenas e entrevistas de jogadores travestidas de meros discursos políticos.
Na última semana, a senhora foi do céu ao inferno. No domingo, comemorou ao ouvir de sua neta que a persistência na violência contra a mulher havia se tornado tema de redação do Enem. Mas dois dias depois, se curvou ao ligar a televisão e perceber que aquele sonhado futebol ainda vive um coronelismo disfarçado. Zico, seu ídolo na década de 80, estava descartado das eleições presidenciais da Fifa. O ex-craque, que buscava por um futebol limpo, sequer teve apoio oficial da confederação do seu país. Nada mais curioso, não?
Hoje, o Sol mais uma vez amanhece quadrado para o ex-presidente da CBF na Suíça. Com medo do mesmo destino, o atual mandatário sequer pisa fora do país, e os até então presidentes da Fifa e da confederação européia seguem afastados por corrupção. Agora, brigam pela eleição um diplomata, um xeique, um príncipe, um ex-prisioneiro, ex-jogadores e cartolas. Enquanto isso, Dona Joana permanece de luto, pois sabe que o jogo sujo continuará regendo seu principal reduto.
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