Ficha Técnica – Lições de jogo
qua, 22 de julho de 2015 08:18
A última vez que vi aquela cena foi há dois meses. Andava pelo centro da cidade quando um homem desceu do carro e rispidamente, empurrou o gari e exigiu que limpasse o outro lado da rua. Com um prêmio Nobel da Humildade nos olhos, o trabalhador arregaçou as mangas e consentiu. Levou consigo suas tralhas e meu estômago embrulhado. Nem se eu tomasse um café, estourando um plástico bolha ao som de Bob Marley, ficaria menos relaxado. O ser humano e suas atitudes medievais de novela das seis. E minha vida mais bagunçada que a abertura da Copa de 66.
Naquele ano, a Inglaterra era sede do mundial. Estáticos como a realeza britânica, os inventores do futebol deixaram o gramado sob vaias da torcida. Não bastasse isso, o cerimonial chamou os jogadores de volta ao campo para cantar “God Save the Queen” – Deus salve a Rainha – após o empate sem gols contra o Uruguai. Assim como no meu quarto, estava tudo fora de ordem no time que dias depois receberia a taça das delicadas mãos da Rainha Elizabeth. Às vezes, a bagunça dá certo.
Decidi fazer uma faxina na vida e no quarto e quando saí dali, encontrei uma jovem moça dos olhos da cor do rio Araguari. Lembrei da seleção holandesa de 74. O instinto revolucionário que faltava naquele esquadrão inglês. A Laranja Mecânica, referência ao romance de Stanley Kubrick, escrito por Anthony Burgess. A exemplo do que ocorreu com Brasil e Argentina, foi como se passasse um arrastão. Mas assim como a Holanda daquele ano, era apenas paixão de verão.
Queria mesmo era que o mundo fosse como a segura Itália de 82, que prendeu alguns dos maiores nomes do futebol num calabouço. Ou a personalidade da Argentina de 86. A “mão de Deus” de Maradona e o dedo na ferida dos ingleses, responsáveis por 669 mortes de argentinos na Guerra das Malvinas naquele mesmo ano.

Policial negro ajuda racista que passou mal durante manifestação nos Estados Unidos
Quem dera um dia dobrasse a esquina e encontrasse novamente a seleção francesa de 98. A equipe que enfrentou a discriminação racial e fez da miscigenação do elenco uma aquarela de talentos. Se isso acontecesse, lembraria daquele gari, que engoliu a ordem de um ‘engomadinho’ pela goela, sem saber que seu uniforme valia mais que qualquer gravata verde-amarela.
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