Ficha Técnica – Heranças do rádio
qua, 12 de julho de 2017 05:20
Existem segredos que desafiam qualquer habilidade de decifrar. Como explicar o desejo incontrolável pelo escanteio curto aos 45 do segundo tempo? As palavras de um Temer em cadeia nacional. A criatividade no nome de uma operação policial ou o potencial de uma simples voz numa final? Há quatro anos, pisei naquele lugar pela primeira vez. Foi o início de uma singela relação de amor à distância, com sinal aberto para saber ouvir e falar.
Lembro que ainda era cedo quando embarquei numa das mais singelas travessias da comunicação. Recém-chegado na faculdade, estava acompanhado do mestre Luiz Muilla, um tanto ousado. A voz que tanto ouvi nas rádios era a mesma que agora me permitia falar. As mãos gélidas de outrora passaram a suar feito tampa de marmita, e o tique-taque do relógio parecia não bater no mesmo ritmo do coração acelerado. Efeitos de uma simbiose inexplicável de até uma hora de duração.
Tudo que sentia perdia o sentido ao sinal do primeiro bom dia. Ali, conheci alguns dos responsáveis por manter viva a crônica esportiva no cenário local. Daqueles que conheci no ar, Luiz Muilla, Rebert Lemos, Pedro Lima, Sebastião Selmer, Daniel Ferreyra. Dos professores da graduação, Danilo Caixeta e Sérgio Gouvêia, e com quem realizei projetos, Marco e Paulo Vitor. Cada nome com seu repertório e um aprendizado diferente.

Ligeirinho ao lado de Yoko Ono em viagem para a Alemanha
*Divulgação
Nesse mundo, uma simples palavra pode dominar o imaginário coletivo, inflamar a alma e contaminar uma legião. Duvida? Experimente ouvir um grito de “Gol” de José Silvério. Saudoso João Saldanha, das rádios Tupi, Globo, Nacional, Manchete e tantas outras, dizia que “futebol brasileiro é uma coisa jogada com música”. Essa semana, não há motivos para cantar.
No último dia 10, a crônica esportiva perdeu Eduardo Luiz de Almeida, o popular “Ligeirinho”, aos 71 anos. Com mais de três décadas a serviço do rádio, recebeu o apelido pela velocidade com que entregava as notícias. Entrevistou Pelé, Rivelino e até dividiu espaço com Yoko Ono, mulher de John Lennon, na viagem da Alemanha para Hungria. Uma lenda que perpetuou até a sua transmissão final, na vitória do Cruzeiro sobre o Palmeiras no último fim de semana. A próxima rodada se cala. O silêncio jamais foi tão inquietante à beira dos gramados.
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