Ficha Técnica – Eis o insubstituível
qua, 29 de março de 2017 05:27
Conheci Saja quando ela ainda experimentava a ingenuidade de uma criança. Tinha 12 anos. Escorada num muro castigado pelo mundo real, recordava o tempo em que tudo parecia fantasia. Trajava blusa de lã e um moletom para se proteger – ao menos – do inverno que passou. Com o hijab, até cobria os cabelos, mas não conseguia esconder o sorriso de esperança no rosto. Os olhos verde-água compenetrados pareciam buscar algum horizonte. Lembrava de Fatima, Zhara, Cedra e Waala. Suas melhores amigas, com quem jogava bola nas ruas. Saja perdeu todas, além da potente perna esquerda. Mesmo assim, ela ainda joga. Vai de cabeça, joelho, trivela. Sua perna direita a leva todos os dias para a escola. A bola reacende um sinal de vida.

Registro da menina Saja, em 2016, na Síria
*Unicef
Saja é uma dentre tantas crianças que vivem à margem da morte na Síria. País de planícies férteis, altas montanhas e desertos, que hoje se vê no meio do fogo cruzado. Uma guerra civil travada há seis anos e que tirou a vida de mais de 400 mil desde então. São quase 8 milhões de desabrigados e mais de 4 milhões de refugiados. “Antes era seguro sair de casa, não preocupávamos com o que pudesse acontecer com a gente”, afirma a menina que se diz apaixonada por futebol. “Quando jogo, não sinto que perdi tudo isso”, completa. A bola se tornou a válvula de escape entre o povo, e a seleção concretiza essa força.
Na última semana, a Síria bateu o Uzbequistão pelas eliminatórias da Copa da Rússia, no próximo ano, por 1 a 0. Antes, havia superado a China e segurado o líder Irã. Em entrevista ao fim do jogo, o técnico Ayman Hakeem tentou descrever seus sentimentos. “Essa vitória não é minha. É para todo povo da Síria. Espero que possamos vencer de novo para trazer a felicidade para os sírios”, disse com os olhos marejados. No jogo seguinte, nessa terça, os sírios lutaram, mas não conseguiram evitar a derrota apertada de 1 a 0 para a Coreia do Sul. Na quarta posição da tabela, a seleção vê o sonho ainda distante, e até seria, fosse apenas um jogo.
Na terra arrasada pelas bombas da guerra civil e as interferências externas, como da Rússia, incrivelmente sede da próxima Copa, o tratamento com o futebol ensinaria facilmente as lições para confederações e entidades que se aproveitam dessa paixão. Um amor puro, como o da menina Saja, que espera se tornar professora de ginástica no futuro. “Meu desejo é que pudéssemos retornar para o jeito que era antes. Espero que possamos sair e voltar em segurança, em vez de não voltar nunca mais”, manifestou, como se personificasse o sonho do convite dos Novos Baianos para a Preta Pretinha em Acabou Chorare, de 1972 – “Abre a porta e a janela, e vem ver o sol nascer”.
Um ano se passou desde que vi o registro de Saja. Ela é de um programa da Unicef que trabalha para apoiar e proteger crianças dentro e fora das fronteiras da Síria. Jovens que, assim como nas periferias do Brasil, ainda cedo aprendem a seguir em frente apesar de tudo. Não à toa, os sírios têm uma das melhores categorias de base da Ásia. Até então, são seis participações em mundiais. A cada disputa de bola, a esperança renasce na terra arrasada. São pais e mães, amigos e irmãos, que surgem na memória de verdadeiros heróis anônimos. A vida segue, bem como o jogo. O futebol é insubstituível.
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