Ficha Técnica – Aos Anjos de Condá
qua, 30 de novembro de 2016 05:38
Numa fração de segundos, um ano de glórias padece ao luto. O futebol imita a vida, mas ela prega peças. Mãos entrelaçadas se tornam nós que desatam a qualquer momento. Palavras não ditas, atitudes guardadas e a esperança na cortesia do destino. Quem sabe um dia, entenderei a nobreza de ser quem se é. Uma cidade movida por heróis que nem tiveram tempo de se despedir. Estavam ocupados demais escrevendo uma história em sintonia entre personagens e contadores. Num dia, a euforia da multidão verde branca. No outro, o vazio, a inquietude do silêncio e do céu infinito.
Mário Sérgio era ex-meia da seleção brasileira e ídolo do Vitória, da Bahia. Victorino Chermont, o Vitú do bairro Jardim Botânico. Paulo Júlio Clement, o PJ da FOX. Ari Júnior, o goiano torcedor do Goiás, que recentemente emprestou seu talento aos desafios do “Planeta Extremo”. Guilherme Marques, um jovem repórter que se destacou nas últimas Olimpíadas. Deva Pascovicci era a voz de todos eles. “Como é rica a história da Chapecoense”, disse o narrador que entoou o espírito de Condá sobre o goleiro Danilo, aos 48 do segundo tempo na semifinal da Sul-Americana.
Operador de milagres. Danilo pegou quatro pênaltis nas oitavas e continuou outros quatro jogos imbatível. Com a ponta do pé, impediu o gol que daria a vaga na final ao San Lorenzo. Aguerrido, foi resgatado com vida, mas não tinha mais forças. Uma alegria como a do garoto Tiaguinho, que há uma semana descobriu que ia ser pai. A vitalidade de Bruno Rangel, maior goleador daqueles campos. A liderança de Cleber Santana, o capitão de Chapecó. A predestinação de Ananias, artilheiro dos grandes jogos, ou a irreverência de Kempes. Tudo isso se perdeu em um avião.
Preparador físico pentacampeão mundial com a seleção em 2002, Paulo Paixão perdeu seu segundo filho. Depois de Alessandro, vítima de um ataque cardíaco naquele mesmo ano, agora é Anderson Paixão, que seguia os passos do pai em Santa Catarina. Assim como o filho do técnico Caio Júnior, Matheus Saroli, o qual despediu do pai no aeroporto ao esquecer o passaporte. Titulares, reservas, comissão técnica, jornalistas e tantos outros que deixaram suas famílias carregando na bagagem a esperança de um futuro melhor. Sonhos que foram imortalizados.

Nunca foi só futebol
*Divulgação
Em 2015, a Chapecoense parou nas quartas de final da Sul-Americana. Um ano depois, chegaria onde nenhuma equipe catarinense alcançou. Um clube novo, que em 43 anos de história embarcava na viagem dos seus sonhos rumo a primeira final na “gringa”. No dia 29 de novembro, a cidade de mais de 200 mil acordou com a comoção de milhões. Jamais aquelas vozes estiveram tão frágeis. A sensação, o Furacão Verde que soprava forte pela América do Sul, se perdeu na imensidão do tempo. Hoje não tem clima, nem cor, tampouco história para contar.
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