A aparência do preconceito, por Francisco Luciano Teixeira Filho
qui, 2 de outubro de 2014 00:05* Francisco Luciano Teixeira Filho
Pierre Bourdieu, um dos mais conceituados sociólogos do nosso tempo, apresenta uma noção diferenciada das estruturas sociais. Para ele, habitus é um conjunto de ideias, regras, gostos, disposições, comportamentos etc., inculcados no indivíduo, durante sua biografia, pela sociedade a qual ele faz parte. Porém, em outro sentido, habitus também é a forma que o indivíduo estrutura o mundo ao seu redor. Ou seja, aquilo que valorizamos, que gostamos, nossas disposições, enfim, são, ao mesmo tempo, recebidas de fora, de uma sociedade exterior e independente de nós, mas também são as nossas formas de entender e dar sentido ao mundo em que vivemos.
O reconhecimento mútuo de vários indivíduos com mesmo habitus, ou melhor, com os mesmos valores, gostos, disposições, enfim, formam campos sociais. Dito de outra forma, quando um grupo de indivíduos se identifica e se distingue de outros grupos, temos a formação de um campo de forças, onde aqueles seus membros disputam os seus capitais simbólicos, através do discurso, da vestimenta, da posse, do gosto etc. O reconhecimento social dos indivíduos, com seus amigos, colegas, vizinhos, conhecidos, enfim, depende de um determinado consumo, de um determinado gosto e de um determinado comportamento, desde a forma de falar e de interpretar o mundo, até a roupa que se veste, o automóvel que se dirige, numa palavra, a estética valorizada pela classe em questão.
Em suma, a questão da inclusão e da exclusão de um grupo depende de determinados comportamentos esperados. Os filósofos se incluem e excluem, no geral, por seu consumo cultural. O acúmulo de livros e a capacidade de articular ideias de autores mortos torna-se o capital com o qual o filósofo especula e adquire seu status no seu campo, grupo social ou tribo. Da mesma forma, para alguns, a forma de inclusão é um carro com som potente ou uma determinada roupa, de determinada marca. Ora, nós nos incluímos em grupos e nos distanciamos de outros por meio de um dado capital simbólico valorizado por um habitus.
Mas o que eu quero dizer com isso? Quero me referir ao perigo que mora na identificação de um determinado padrão de consumo, um gosto particular, uma estética de classe, enfim, com a criminalidade. Os capitais simbólicos, valorizados por uns e desconsiderados por outros, não podem servir de “fundada suspeita”, sob pena de criarmos uma sociedade cindida – e já não vivemos isso? Não digo que a única saída seja o relativismo cultural extremo, mas a solução não é estigmatizar uma classe social como caso de polícia. As periferias, as favelas, enfim, têm sua própria estética, vivem numa sociedade em que se valoriza outras coisas. Se há criminosos vestindo cotelê e correntes douradas, não há, também, de terno italiano e colarinho branco? Por qual motivo, então, só os primeiros são suspeitos a priori?
* Professor de Filosofia
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