Senhor, quero o meu Natal, por Diomar Freire
qua, 24 de dezembro de 2014 00:24“O tempera! O moro!
O tempos! O Costumes!”
Cícero, filósofo romano
Diomar Freire *
Senhor, estou vivendo o Natal, mas o Natal não está em mim. Por mais que eu penso em ver o menino Deus nascendo na gruta manjedoura, me entristece deste Natal sem religiosidade de interesses comerciais.
Machado de Assis tinha razão ao perguntar quem tinha mudado, o Natal ou ele? Pra mim quem mudou foi o Natal. O meu Natal é o Natal da minha infância, das minhas lembranças, da minha querida terra natal Arraias-To. Naquele tempo havia fé. Naquela época eu me prostava, diante do meu Menino Jesus, bom e generoso, não só para pedir os presentes, mas para agradecer e proteger a minha família, os meus amigos e a minha professora. Eu sonhava e sonho até hoje. Eu quero, Senhor, o meu Natal da minha infância, sem essas propagandas desenfreadas, passageiras de marketing. Eu quero, Senhor o meu Natal de cânticos litúrgicos inesquecíveis, quero ver Jesus na manjedoura cercado de animais e os três Reis Magos chegando da eternidade guiados pela estrela.
Eu quero, Senhor, recordar, bem criança, fui com meu pai na missa do Galo. Ao soar da sineta, ele se concentrava colocando a cabeça entre as mãos. Olhando para ele me perguntava: Porque ele ficou tão sério! Era o momento da consagração. Naqueles momentos eu pensava: Estão pedindo os presentes do Papai Noel para mim! E vinham, com certeza, muitos presentes. Mais tarde, muito mais tarde, os anos de estudos com padres jesuítas, eu mudei. Os tempos mudam e nós mudamos com ele. “tempora mutanties et nos cum illis” assim disse o poeta romano Virgílio.
Eu quero, Senhor, ir à missa do Galo e rezar com as minhas netinhas: Giovanna, Maria Eduarda e Gisela. E peço, com o coração contrito que a Estrela de Belém guie a felicidade delas e de todas as crianças do mundo.
Eu quero, Senhor, que o meu pedido deste Natal seja para que os governantes parem de roubar. Eu quero, Senhor, na missa do Galo fazer um pedido ao prefeito de Araguari. Quero que essa cidade seja limpa, bonita, arborizada, acima de tudo acolhedora. Uma cidade onde os cidadãos tenham seus direitos humanos respeitados. Desejo para a administração de nossa cidade que seja transparente no uso de recursos públicos, que não trabalhe visando aos interesses próprios e sim ao bem comum de toda a população.
Eu quero Senhor, o meu Natal, o meu Natal do passado. Eu quero, Senhor, ao menos uma parcela do meu passado da minha infância, no mundo de lembranças em que, por vezes, passeio de olhos fechados com saudade de mim próprio.
* Formado em Filosofia
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