VIRA-LATA – 19 DE MARÇO
qui, 19 de março de 2026 08:00
“Justiça por Orelha”: decreto aumenta penalidades por maus-tratos
A aprovação do decreto “Justiça por Orelha” é uma mudança significativa na forma como o Brasil encara os crimes de maus-tratos contra animais. Ao elevar significativamente o valor das multas — que agora variam de R$ 1.500 a R$ 50 mil por animal, podendo alcançar até R$ 1 milhão em casos agravados — o governo federal, com a voz da comunidade que não deixou passar em branco a morte do cãozinho Orelha, envia uma mensagem clara: a crueldade não será mais tratada com complacência institucional.
Infelizmente e por muito tempo, a legislação brasileira manteve punições brandas diante de práticas que revelam um dos aspectos mais perturbadores da violência social. Multas que variavam entre R$ 500 e R$ 3 mil eram, na prática, insuficientes para inibir condutas abusivas. Em muitos casos, funcionavam quase como um custo tolerável para infratores, especialmente quando comparadas à gravidade do sofrimento imposto aos animais.
O novo decreto rompe com essa lógica ao introduzir não apenas valores mais altos, mas também critérios de agravamento que refletem melhor a complexidade dos crimes. A inclusão de fatores como morte do animal, sequelas permanentes, vulnerabilidade, abandono e até a exploração da violência nas redes sociais demonstra uma tentativa de alinhar a legislação à realidade, onde a crueldade, por vezes, é exibida e amplificada digitalmente.
Mais do que uma resposta jurídica, a medida tem forte caráter simbólico. O nome “Justiça por Orelha”, em referência ao cão brutalmente agredido em Santa Catarina, transforma um episódio de violência em catalisador de mudança. Casos como esse, infelizmente recorrentes, deixam de ser apenas estatísticas e passam a representar um chamado coletivo à ação. Ao dar rosto — ou melhor, história — à causa, o decreto aproxima a sociedade de uma pauta que, por vezes, é negligenciada.
Entretanto, é preciso reconhecer que o endurecimento das penalidades, por si só, não resolve o problema. A eficácia da nova legislação dependerá diretamente de sua aplicação rigorosa, da capacidade de fiscalização dos órgãos competentes e, sobretudo, de uma mudança cultural mais ampla. A fala das autoridades durante o anúncio do decreto é precisa ao apontar que a violência contra animais está inserida em um contexto maior de brutalidade social. Combater esse fenômeno exige educação, conscientização e engajamento contínuo.
A Semana Nacional dos Animais, cenário do anúncio, reforça esse entendimento ao reunir diferentes setores da sociedade em torno da construção de políticas públicas. Esse tipo de articulação é fundamental para que medidas como o decreto não se tornem apenas respostas pontuais a casos de grande repercussão, mas sim parte de uma estratégia duradoura de proteção à vida animal.
O Brasil avança ao reconhecer que a forma como trata seus animais diz muito sobre seus valores enquanto sociedade. O decreto “Justiça por Orelha” é, sem dúvida, um passo importante — mas é apenas o começo de um caminho que exige vigilância, compromisso e, acima de tudo, empatia.
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