Tolerância religiosa
sáb, 1 de fevereiro de 2014 00:00* João Baptista Herkenhoff
É sempre oportuno refletir sobre o diálogo entre as crenças e a possibilidade de ações em comum baseadas em ideais éticos partilhados por numerosas religiões.
Houve um tempo em que o Brasil era um país de maioria solidamente católica. Hoje as religiões adotadas pela população brasileira diversificaram-se grandemente. Inúmeras crenças cristãs, que não apenas a religião católica, têm amplo número de adeptos. Religiões africanas e indígenas, que uma visão equivocada de Cristianismo pretendeu sufocar, ressurgem como afirmação da dignidade de raças oprimidas. O Judaismo, o Islamismo, o Budismo, o Taoísmo, o Confucionismo estão presentes no mosaico religioso do Brasil contemporâneo.
Ouvi de Dom Luís Gonzaga Fernandes, que foi Bispo no Estado do Espírito Santo, esta singela colocação: “toda verdade, toda Justiça provém de um único Deus, um Deus com muitas faces, um Deus com muitos nomes.”
Em período de estudos que passei na França, tive especial interesse pela questão das religiões em face dos desafios éticos. Li inúmeros autores. Dialoguei com crentes de diversas confissões. Concluí que as maiores religiões e sistemas filosóficos da Humanidade afinam, nos seus grandes postulados, com as ideias centrais que caracterizam um conjunto de princípios que poderíamos denominar como Ética das Relações Humanas Fundamentais.
Cornelius Castoriadis observa que as religiões em geral têm uma pretensão universalista, no sentido de que sua mensagem endereça-se à Humanidade inteira. Não obstante esse caráter “universalista da religião”, acreditamos que um elo de compreensão pode estabelecer-se através do diálogo e da tolerância.
Os valores do Bem, da Justiça, da Fraternidade são reverenciados nas mais diversas tradições religiosas da Humanidade. Não são monopólio do Ocidente ou propriedade cristã, e muito menos pertencem a um credo particular.
Que haja comunicação entre as diferentes crenças, entre as pessoas que aderem a essas crenças. Não se trata da falsa comunicação, totalitária e impositiva. Trata-se da verdadeira comunicação, baseada no respeito ao outro e na abertura para ouvir. É a esta comunicação que se refere François Marty. É a comunicação bipolar, que supõe um elo entre as pessoas que se falam.
Que haja humildade. Só a humildade permitirá às Igrejas a aceitação da historicidade de suas formas concretas de existência.
No que se refere aos católicos, tudo indica que o Papa Francisco ampliará o abraço fraterno de todos os crentes.
No Brasil, de maneira particular, será de bom conselho o comportamento tolerante em matéria religiosa. Que cada um siga sua consciência e respeite a consciência do próximo.
* Juiz de Direito aposentado (ES), professor e escritor.
E-mail: jbherkenhoff@uol.com.br
CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2197242784380520
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