O lugar da utopia é a cidade, por Francisco Luciano Teixeira Filho
ter, 20 de janeiro de 2015 00:04Francisco Luciano Teixeira Filho *
Há mais de dois milênios, um filósofo grego escreveu uma proposta de sociedade perfeita, baseada na natureza e na liberdade individuais. Essa proposta está contida no livro que conhecemos como República, cujo autor não precisa ser apresentado: Platão. Com essa obra, registra-se, pela primeira vez na história, a utopia de uma cidade justa, igualitária, baseada na autogestão e no autocontrole dos indivíduos e destes sobre a cidade.
Ao contrário do que se costuma dizer, a figura do rei-filósofo, na República, não se iguala a um déspota esclarecido ou a um tecnocrata totalitário, mas opera como um sábio, que pela idade e pelo domínio da dialética (conversa com fim na verdade), ajudaria a trazer a verdade, a beleza e o bem ao conhecimento de todos.
A república platônica, além disso, foi uma forma de crítica da sociedade daquele tempo. Os gregos, como nós, tinham por si a mais alta estima e, grandiloquentes, julgavam-se sabedores de todas as coisas. Contudo, a famosa democracia ateniense dava sinais de fracasso; as artes começavam a perder originalidade; os sábios se envenenavam no seu próprio ego; enfim, as pessoas, os grupos e as classes, medindo-se com um olhar centrado em si mesmos, não conseguiam vislumbrar suas próprias falhas. Isso levou aquela sociedade, lentamente, à corrupção. Sócrates, mestre de Platão, os alertou através do seu irônico “só sei que nada sei”, mas foi silenciado com a morte. Sobrou para Platão a responsabilidade de dialogar sobre a cidade para além das suas estruturas corroídas.
A utopia platônica, portanto, deve ser lida como exemplo, mas não só pelo dito ou pelo pensado, mas pelo vivido. Enquanto nos laurearmos pela nossa visão de nós mesmos; enquanto acharmos que tudo está bem, sem um olhar crítico sobre nossas ações; enquanto nos centrarmos em visões corporativistas e ufanistas, estaremos fadados a repetir os nossos erros e de definharmos, junto com as belíssimas ideias que temos de nós mesmos. Precisamos nos medir desde a visão do outro – essa é a lição da dialética platônica. Precisamos dialogar vividamente, na cidade, buscando nos aproximar ao máximo do que é bom para a nossa sociedade. Ideias em cabeças morrem, mas ideias dialogadas na cidade, com os diferentes, vivem para sempre, incrustadas nas ruas e nas praças.
* Professor de Filosofia
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