Ficha Técnica – Especial Pelezinho, parte 2
qua, 3 de fevereiro de 2016 08:27
Inferno astral
Horóscopo, tarô da sorte, numerologia, mapa astral. Seja o que fosse não havia astrologia que confortasse aqueles homens de malha listrada. Ali, os gritos davam lugar ao silêncio, orações perdiam para a descrença, e cada jogada parecia uma sentença. Eram os 90 minutos mais frustrantes desde a festa de Carnaval no retiro da esperança.
Setembro de 1977. Na capa da edição de número 4331 do Jornal Gazeta do Triângulo, as memórias daquela época sombria voltavam à tona. Era tempo de eleições no Sindicato Rural de Araguari. Quem comprasse um Mercedes-Benz receberia dupla garantia, e todos estavam convidados a pagar o dízimo no primeiro domingo do mês. A partir do dia 24, entraria em cartaz o filme “Todos os Homens do Presidente” no cinema. Mas outra atração ganhava destaque.

Pelezinho (à direita) conduz jogadores do Araguari rumo ao campo de jogo
“Hamilton Soares Alfaiate: Campeão da Bola, Campeão da Lei”. Esse era o título do texto do doutor João Batista de Sousa, fanático torcedor do Fluminense de Araguari, que lembrava a revolta quando quiseram unificar os times da cidade. Torcedores do Araguari Atlético Clube, como Omar Mujalli, e tricolores como Mauro Cunha, que “só faltou o andar abrir as veias de seu corpo para dar o sangue ao futebol”. Além disso, havia um ingrediente a mais, cujo protesto eliminava qualquer precedente.
“Pela rivalidade natural entre tricolores e estrelados, é que não ia ver o Hamilton jogar a bola redondinha que sempre jogou, pois um tricolor autêntico jamais pensaria em contribuir para os cofres estrelados”, manifestava João Batista, antes de reiterar – “Eu presenciei torcedores do meu time (Fluminense) pedindo aos céus a morte para Pelezinho dentro mesmo do gramado. Pudesse, o cidadão venderia sua alma para que desse um troço na espinha dorsal daquela camisa 10 vermelha”.
A estrela de Pelezinho ainda brilharia envergando as cores do Fluminense. Mesmo assim, ninguém mudaria o que aquele pé esquerdo um dia foi capaz de fazer. O homem que desafiou a fé alheia, polarizou uma cidade, e mesmo depois de aposentado, ofuscava lançamentos de cinema ou promoções de carros importados. Se a sua presença em campo era afago de um lado do círculo central, do outro era receita para um novo inferno astral.
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