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Epidemia da Beleza, por Ana Paula de Castro Sousa

qua, 12 de março de 2014 00:00

* Ana Paula de Castro Sousa

Com esse título, li um artigo de Gilberto Dimenstein no jornal Folha de São Paulo onde ele declara que movidos pela vaidade ao menos cento e trinta crianças e adolescentes se submeteram à cirurgia plástica durante o ano de 2010, número que tende a aumentar significativamente nos próximos anos.

O jornalista pergunta pela causa deste servilismo à estética e, a resposta é clara: existe uma epidemia de preocupação com a beleza física.

Duas constatações feitas por uma pesquisa do canal MTV o conduzem a esta conclusão: 15% dos jovens entrevistados trocariam 25% de sua inteligência pela beleza; a vaidade é o primeiro traço que define a atual geração, seguida do consumismo, individualismo e comodismo.

Tudo isto sem levar em conta que a beleza física se vai e a inteligência fica. Estas constatações que englobam todas as classes sociais têm, portanto, uma causa comum. Gilberto Dimenstein responsabiliza a mídia, mas, eu diria que para além dos meios de comunicação, o sistema capitalista é o grande responsável por esta situação uma vez que tudo transforma em mercadoria, desde as relações humanas até a medicina, educação, sexualidade. Tudo se destina ao lucro criando “fetiches” como o da beleza física, transformando-a em ganho material.

A mídia se constitui no instrumento de transformação e divulgação dos ideais do sistema. Ela valoriza a aparência e venera a celebridade, impondo um modelo de beleza que frequentemente exige uma dieta desumana, e inconveniente à saúde física. Então os modelos são de seres esqueléticos que são fotografados, expostos e interrogados sobre os mais diferentes assuntos os quais passam bem longe de suas preocupações da política à religião, da educação ao sexo, da ciência à ecologia, suas opiniões são lançadas ao público, pouco importando se são opiniões de seres vazios com pouco discernimento ou de formação essencialmente precária. Eles estão lá. São vistos, admirados e divinizados pelo público. Sim, o culto à celebridade faz surgir uma casta de “célebres” para a qual a boa aparência, isto é, a beleza é suficiente para torna-los realizados.

A técnica, em especial a internet favorece o aparecimento de um imediatismo ilimitado que faz viver intensamente o presente, uma vez que tudo se passa rapidamente.

O narcisismo e o ceticismo caminham juntos, conforme a citada pesquisa. Diante da ação da internet, a vida se torna muito fugaz. Tudo passa rapidamente tornando necessário a conquista da vida agora, imediatamente. Valorizando-se somente o presente, despreza-se a experiência passada e, vive-se o agora sem perspectivas futuras, criando-se profunda incredulidade, consequentemente, o desinteresse por tudo que ultrapassa a individualidade.

Presentemente, não se criam utopias a ser alcançadas por árdua luta e, sem elas, a juventude se envolve com drogas, violência, culto a aparência, busca da celebridade. Vai longe o tempo da mobilização, do engajamento para mudar o mundo.

Neste mundo de imediatismo e de individualismo, alimentado pela vaidade as relações humanas são cada vez mais impessoais, e passageiras enquanto a vida pessoal é cada vez mais exposta e desprovida de emoções mais profundas e significativas. Preferem-se as conversas virtuais aos amigos reais. Os pais abdicam a condição de pais passando-se por amiguinhos dos filhos, como se desejassem voltar à infância e a adolescência. Tal culto à futilidade molda a maneira social de pensar, relacionar, enfim, de viver.
Todavia, é preciso não perder a esperança. Nascem, embora pontualmente, movimentos de resistência por meio de jovens atentos àquilo que os rodeia, enquanto escolas e educadores trabalham com seus alunos a colaboração, a solidariedade, o cuidado consigo e com os outros. Se há esperança não se pode apenas esperar, mas participar.

* Graduanda do curso de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Uberlândia.

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