E o bicentenário?, por Inocêncio Nóbrega
sex, 15 de agosto de 2014 00:02* Inocêncio Nóbrega
A passada Copa do Mundo no Brasil, ansiada há quase uma década, por tudo que foi gasto para seu êxito, está a exigir dos futuros mandatários da nação, igual ou melhor dedicação ao bicentenário da nossa independência, em 2022. No primeiro caso o então presidente Lula, pessoalmente aceitou todas as condições impostas pela Fifa, como a de ceder parte da nossa soberania, manifestada na Lei Geral da Copa; reformulação de estádios nas capitais-sedes; melhoramentos urbanos, a fim de facilitarem as vias de acesso; total desobstrução de áreas ao seu derredor, ainda que ao arrepio de direitos sociais; reforço na segurança militar, o que foi feito com tecnologia importada, tudo isso em nome de um megaevento de trinta dias, sem o mínimo fundamento histórico, em homenagem ao reinado da bola.
Temos pela frente – só nos separam oito anos – das comemorações bicentenárias, e nenhuma referência, a seu respeito, vem sendo feita pelas autoridades, entidades de cultura, federais, dos estados e municípios, além da mídia, especialmente a de maior peso junto à população. Um lembrete aos senhores presidenciáveis, durante suas aparições nas TVs, emissoras de rádio e jornais, deve constar das pautas dos entrevistadores, a de cobrar preparativos iniciais para estes festejos, à altura de um país que se destaca no cenário continental e do mundo. Esperamos um compromisso de cada um deles.
Os episódios, os quais antecederam ou sucederam ao Grito do Ipiranga, são dignificantes, e 14 de agosto se oferece para o marco dessa história. Eis porque, nessa data, em 1822, D. Pedro, comandando um séquito de cinco cavaleiros, por ele escolhidos, passa a cobrir um percurso de doze dias, do Rio à S. Paulo. O príncipe tinha uma missão em particular, pacificar ânimos políticos internos, ensejados pela abrilada, os quais comprometiam a campanha independencista em marcha, nos mais variados recantos da Colônia. Repetiu o êxito anterior, de semelhante situação nas Minas Gerais. Todas as formas de agressão, vindas de Lisboa, eram denunciadas, a ponto de a 1ª de agosto daquele ano, em decreto declarasse como ato de guerra, quaisquer forças armadas portuguesas que tentassem desembarcar no Brasil sem sua autorização. Jornalista Gonçalves Ledo dava sua contribuição, proclamando união de brasileiros pela justa causa. Nações do Continente, já libertadas, acompanhavam a evolução dos acontecimentos. Enfim, o epílogo de 7 de Setembro!
Ignorá-los, é fruto de uma simetria de ensino, de ressaibo capitalista, que se acumula ao longo dos tempos. Buscar-se um calendário cívico especial, com vistas ao bicentenário, seria uma maneira inteligente e patriótica de redimir-se. Os dispêndios orçamentários seriam minimizados. Não haveria pretensões de lucros, partilhas com empreiteiras, nem ingerência da Fifa. A Constituição, não sofreria restrições. Todos – tenho certeza – atendeririam à convocação de Ledo, inclusive a juventude em protesto.
* Jornalista
inocnf@gmail.com
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