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DIREITO E JUSTIÇA – 23 DE JULHO

qui, 23 de julho de 2026 08:00

Uma “Água Milagrosa” Traria Paz ao Mundo?

O valor do silêncio:

– “O homem é senhor do que cala e escravo do que diz” (Sigmund Freud). Às vezes, o silêncio diz mais do que qualquer palavra. Saber calar é sabedoria; saber falar é poder e eu acrescento: poder falar é liberdade. Há muitas frases e pensamentos que buscam definir ou avaliar o silêncio. Por exemplo: “o silêncio é ouro, a palavra é prata” ou “o silêncio é um amigo que nunca trai”. Eu também poderia acrescentar a esta última: “a palavra, uma vez proferida, nunca mais retornará àquele que a pôs no mundo e poderá sair do seu controle”. Pensem nisso!

A resposta que existe no silêncio:

– O silêncio é a melhor resposta para discussões desnecessárias e preserva a paz de espírito. Em vez de reagir por impulso, calar demonstra segurança, sabedoria e maturidade. Muitas vezes, o silêncio também cura e dá espaço para refletir sobre a vida e as coisas que realmente importam. O Livro de Provérbios I (Bíblia Sagrada) consigna em 17.28: “Até o tolo, quando se cala, é reputado por sábio; e o que cerra os seus lábios é tido por entendido” Em 10.19, “No muito falar não falta transgressão, mas o que modera os lábios é prudente”.

Aquele que sabe guardar o silencio”

– Ainda extraídos do Livro de Provérbios: 11.12: “quem zomba do próximo carece de juízo, mas o homem de entendimento guarda silêncio”; 13.3: “o que guarda a sua boca conserva a sua alma, mas o que abre muito os seus lábios, se destrói”. Portanto, o valor dado ao silêncio é fruto de uma sabedoria milenar e generalizada, que nos chega até hoje por inteiro através do dito popular “em boca fechada não entra mosquito”. Quantos males (inimizades, brigas, rixas e até homicídios) poderiam ter sido evitados, se tivesse havido apenas um instante de silêncio por parte de um dos envolvidos em discussão?  Daí o motivo por que lhes trouxe este apólogo “A Água Milagrosa”.

 

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A Água Milagrosa:

Referem os autores o caso gracioso de uma pobre mulher que se foi queixar, mui magoada, a um velho sacerdote dos desabrimentos do marido.

– Logo que entro em casa – narrou a infeliz – é uma tormenta desfeita de impropérios e de injúrias; renovam-se todos os dias estas cenas violentas, com grandes clamores que atordoam e escandalizam a vizinhança. Ando consumida, já me é insuportável a vida; dizei-me, padre, que deverei fazer em tão angustiosa situação?

O padre, depois de ouvi-la com toda a paciência, foi buscar um frasco de água e lhe entregou, dizendo:

– Esta água, colhi de uma fonte junto à Igreja de São Geraldo, é milagrosa. Todas as vezes que seu marido aparecer colérico, e começar a maltratar-te com palavras ásperas, toma um pouco desta água na boca, e aí a conservarás até que ele se tenha calado. Verás que a água de São Geraldo possui realmente uma virtude maravilhosa.

Fez a esposa exatamente como lhe ensinara o padre e observou que, quando tomava a água na boca, a ira do marido como que se amainava mais depressa. Suas cóleras foram-se tornando cada vez menos duradouras e menos frequentes, até que enfim cessaram de todo, e reinou a paz entre o pobre casal.

Voltou a mulher ao padre, toda jubilosa, a agradecer o portentoso efeito da água milagrosa de São Geraldo.

– Minha filha – disse-lhe, então, o sacerdote – a água que te dei só teve uma virtude, e não pequena. Foi a de fazer-te calar; enquanto a tinhas na boca, não podias proferir palavra. A esse silêncio, e só a ele, deves o benefício da paz e concórdia que desfrutas agora com teu marido.

Se, quando um se agasta, o outro se calasse, nunca haveria discussões.

Muitos casais seriam felizes e viveriam em perfeita harmonia, se o cônjuge sensato e prudente experimentasse sempre, nos momentos precisos, o efeito milagroso da água de São Geraldo.

 

AUTOR:        Dom Macedo Costa

FONTE:         Malba Tahan.

Lendas do Céu e da Terra, Pág. 66/67.

 

 

Comentário Pessoal:

É muito difícil, se não impossível, mantermos permanentemente conosco uma boa quantidade de água milagrosa, tendo-a à mão por todo o tempo, no dia a dia das nossas atividades, sempre pronta a intervir em nosso favor, livrando-nos de deslizes e percalços, de quedas e traições. Até porque tal água milagrosa, como tal, não existe.

Todavia, é perfeitamente possível fazer conforme está consignado no texto que ilustra esta Coluna DJ, ou seja, manter e preservar o silêncio, trancar os lábios em determinadas ocasiões e situações, conseguindo a paz, favorecendo a conciliação e assegurando, em certos casos, até mesmo a nossa integridade física e pessoal.

Fazendo uma digressão, consigno que o povo diz com muito acerto:

– “Quem fala demais dá bom dia a cavalo”.

Essa expressão popular, muito emblemática no seu enunciado, significa que falar em excesso ou sem pensar faz com que a pessoa desperdice palavras (e o tempo também) com quem não vai responder, compreender ou interagir. No final das contas, é um conselho sobre ter domínio próprio e objetividade nas coisas que possuem relevância.

Seguindo o fio da meada, a sabedoria popular também diz:

– “A palavra é prata, o silêncio é ouro”.

O silêncio tem, sim, um valor inestimável. Por sua vez, a palavra, uma vez proferida, jamais retornará àquele que a pôs no mundo, seja para o bem, seja para o mal. Uma vez ofendida a honra de alguém, não é mais possível recolherem-se todas as ofensas irrogadas e postas em circulação. Calúnias, difamações e injúrias exteriorizam-se principalmente por palavras, que são em geral irrefletidas e temperadas pelo ódio, pela raiva, pela inveja e pela maldade.

Por outro lado, o silêncio em um mundo hiperconectado no qual vivemos deixou de ser apenas a ausência de som e tornou-se um autêntico luxo e uma ferramenta de autocuidado e autopreservação individual. O silêncio, longe de ser um vazio, poderá significar concordância, discordância, desprezo e tantas outras coisas quantas nuances da vida possam proporcionar em cada circunstância ou ocasião.

A palavra traz consigo numerosos perigos, imprecisões ou dúvidas, contendo um risco e uma escolha. Nem sempre poder-se-á dizer que “a voz do povo é a voz de Deus (vox populi vox Dei), exigindo-se cautela, conhecimento, moderação, contenção e muita serenidade, para que não cause males e estragos a quem a profere e aos outros. Por isso mesmo e diante de tais perigos que a palavra de hoje em dia encerra, saber perceber quando e como calar-se poderá ser-lhe útil e essencial. O silêncio poderá soar mais alto do que a palavra em certas situações. Vejam:

– O silêncio poderá reforçar e até apimentar um relacionamento fragilizado como amizade, namoro, casamento.

– O silêncio poderá evitar um atrito ou até salvar uma vida numa briga no trânsito, na rua, em um bar.

– O silêncio poderá preservar um emprego na fábrica, no escritório.

– O silêncio poderá manter a sanidade mental, coibir a agressividade, impedir a violência.

– O silêncio nem sempre é subserviência, podendo ser um ato de pura inteligência.

– O silêncio, enfim, é uma decisão exclusivamente sua, e não de outrem.

O renomado escritor britânico Oscar Wilde foi preciso, quando afirmou:

– “Se soubéssemos quantas e quantas vezes nossas palavras são mal interpretadas, haveria muito mais silêncio no mundo”.

Perfeito. É exatamente isso. Toda e qualquer palavra que proferirmos, por mais bem-intencionadas que possa ser, é passível de falseamento total ou parcial, o que não tira o mérito final de uma “água milagrosa de São Geraldo” que seja capaz de prevenir, atenuar ou resolver conflitos humanos, quase sempre motivados por teimosia, rabugice ou pura e simples ignorância.

Mais uma vez, eu recorro à sabedoria popular:

– “Quando um não quer, dois não brigam”.

E vale a pena tentar fazer como foi dito no apólogo:

– “Se, quando um se agasta, o outro se calasse, nunca haveria discussões””.

Pois é! Quem sabe poderia funcionar com você…?

 

Araguari – MG, 23 de julho de 2026.

Rogério Fernal .`.

 

 

 

 

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