Despercebidos caminhos da intolerância, por Fernando Rizzolo
qui, 11 de dezembro de 2014 00:03* Fernando Rizzolo
Talvez uma das coisas mais difíceis na percepção da realidade política de um país seja a observação das condutas sociais que se mesclam a outras demandas. Tais demandas vêm com roupagem que legitima as causas proclamadas – como as passeatas promovidas pela oposição, calcadas em interesses obscuros que assombram a democracia e a defesa das minorias, sejam estas quais forem. Com efeito, grupos que representam a extrema direita, adormecida durante anos, encontraram nas propostas da oposição ambiente propício para lançar e propagar ideais como a volta do regime militar e inspirações outras de cunho nefasto, que afloram não só no Brasil como em outros países.
Sempre na minha humilde concepção de Direitos Humanos procurei lançar textos sobre a desigualdade social, o papel do negro na nossa sociedade, a dignidade dos nordestinos no nosso país, e a defesa das minorias assolapadas pela intolerância – cuja origem deságua nas ideologias racistas, que tanto mal fizeram no decorrer da história da humanidade. Numa análise conjuntural observamos no Brasil que grande parte daqueles que apoiam a oposição na sua pauta reivindicatória baseada no esteio da liberdade de expressão, estão – sem se dar conta – servindo, de forma velada (o processo que Carl Jung chamou de “inconsciente coletivo”), a grupos de extrema direita cuja ambiguidade ideológica poderá um dia levar essas pessoas à condição de “vítimas de um tiro no próprio pé”.
A intolerância no país aumenta sim, a ponto de descobrirmos através da imprensa cidadãos promovendo o nazismo, chegando a desenhar suástica nas suas piscinas (como o ocorrido na região da cidade de Pomerode, em Santa Catarina), enaltecendo e afirmando em público seu fascínio pelas ideologias fascistas. Ora, a nossa legislação é coerente, mas a interpretação, no meu ponto de vista, é equivocada, pois se é vedada a divulgação de símbolos nazistas em público, na piscina também o deveria ser, pois, do alto, ou a bordo de uma aeronave, se pode ver o símbolo. Entendo, portanto, que a liberalidade e a impunidade, assim interpretadas, acabam sendo mais um componente a induzir pessoas e grupos a fazerem apologias dessa natureza.
Vejo com tristeza o caminho que trilha a nossa democracia, quer pelo aspecto da corrupção vergonhosa que assola o país, quer pelo afrouxamento interpretativo das mazelas históricas que resultaram no extermínio de mais de 6 milhões de judeus. Considere-se aqui também a passividade jurídica que propicia a leitura de que a liberdade de expressão está acima dos fatos nebulosos da humanidade, tornando assim assustador o destino das minorias. E o pior, tudo isso no mais silencioso movimento, como o dos mais famosos nadadores, que, quando nadam, pouca água espirram e pouco barulho fazem. Ao contrário, movimentam-se com classe e perfeição, provocando admiração nas piscinas, muitas vezes permeadas de ódio e molhadas de lágrimas.
* Advogado, jornalista, mestre em Direitos Fundamentais, membro efeivo da Comissão de Direitos Humanos OABSP, rizzolot@gmail.com , www.blogdorizzolo,com.br
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