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Coluna: Direito e Justiça (21/12)

qui, 21 de dezembro de 2023 08:09

Direito e Justiça:

 

– Batem à tua porta. É Jesus de Nazaré. Deixa-o entrar…!

– Jesus está batendo à tua porta. Deixa-o entrar. Não hesites por mais tempo.

– Jesus é a Luz do Mundo; é o bom pastor que que nos abriga e protege.

– O Doce Rabi da Galileia é o caminho universal; é a verdade e a vida.

– Neste Natal, honra o Salvador, fazendo fielmente o que ele tanto fez.

– Pratica, portanto, o amor, o perdão, a caridade e a solidariedade.

 

 

 

 

A Noite Santa:

 

Naquela noite, um pobre saiu a implorar auxílio, batendo de porta em porta:

– Socorrei-me, boas almas! Em minha casa acaba de nascer uma criança, e eu preciso acender o lume para aquecer minha esposa e o pequenino. Dai-me um pouco de brasa, pelo amor de Deus!

Mas era alta noite. Toda a gente estava a dormir, e ninguém lhe respondia. De repente, o homem avistou, ao longe, um clarão e caminhando para lá, encontrou uma fogueira acesa e em volta dela um rebanho de carneiros brancos dormindo, e um velho pastor a guarda-los, também mergulhado no sono.

Quando o homem que andava em busca de brasas chegou ao pé dos carneiros, a bulha dos seus passos acordou três canzarrões que dormiam aos pés do pastor. As largas bocas dos rafeiros abriram-se para ladrar, mas nenhum som saiu delas. O homem notou que o pelo dos ferozes animais se eriçava e que as suas presas aguçadas luziam ao clarão da fogueira. E todos três se atiraram assanhados contra ele. Um abocanhou-lhe uma perna, outro a destra, e o terceiro segurou-lhe a garganta; mas as mandíbulas dos molossos ficaram inertes, e o homem não foi mordido.

Quis ele então aproximar-se mais do fogo, para de lá tirar algumas brasas. Mas os carneiros eram tantos e estavam deitados tão juntinhos, que não havia como passar entre eles. Foi-lhe forçoso pisá-los para avançar; e nenhum deles acordou, nem se mexeu. Quando o homem chegou ao pé da fogueira, o pastor que dormitava em sua enxerga de peles ergueu-se impetuoso e irado. Era criatura ruim e mal-encarada

Ao ver ali o desconhecido, agarrou, lesto, uma enorme pedra e arremessou-a contra ele. O perigoso seixo partiu direto ao homem. Quando, porém, ia atingi-lo, desviou-se e foi espatifar-se no chão.

Então o homem, aproximando-se do pastor, falou-lhe assim:

– Compadece-te de mim, amigo, e deixa-me levar algumas brasas. Em minha casa acaba de nascer uma criança, e eu preciso acender o lume para agasalhar minha esposa e o pequenino.

O primeiro impulso do pastor foi o de uma recusa cruel; pensou, porém, nos cães que não tinham ladrado nem mordido, nos cordeiros que não tinham fugido, na pedra que não tinha querido ferir o homem. E sentiu um temor vago, indefinível.

– Leva o que quiseres – respondeu secamente.

Ora, o lume estava agora quase a apagar-se. Nem ramos a arder, nem achas grandes. Só havia um monte de brasas miúdas, e o homem não tinha pá, nem qualquer coisa em que pudesse leva-las. Ao ver isto, o pastor repetiu:

– Podes apanhar as brasas que quiseres!

Mas no íntimo regozijava-se maldoso, certo de que o homem não podia levar um braseiro nas mãos nuas. Mas o outro abaixou-se, afastou as cinzas, tomou de uma porção de carvões incandescentes e pô-los numa aba da esfarrapada túnica. E as brasas não lhe queimaram as mãos, não lhe queimaram a véstia e ficaram a brilhar nelas como rútilos rubis. E o desconhecido partiu.

O pastor, vendo tudo isto, disse de si consigo: “Mas que noite é esta, em que os cães não mordem, e os carneiros não se espantam, e a pedra não fere, e as brasas não queimam?”

Foi ao encalço do homem e o interrogou:

– Que noite é esta, em que até as próprias coisas se mostram inclinadas ao amor e à piedade?

O homem respondeu:

– É a noite de Natal, meu amigo. Jesus, Salvador, acaba de nascer…

 

FONTE: Lendas do Céu e da Terra – Malba Tahan.

Autoria de Selma Lagerlof (Adaptação de M. T.).

Editora Record, 19ª Edição, págs. 104 / 105.

 

Glossário:

LUME:

– Fogo (fenômeno), jato de luz, brilho, clarão, claridade.

RAFEIROS:

– Cães de casta (raça ou pedigree) que servem para o manuseio e a guarda de rebanhos (gado, carneiros, etc.).

MOLOSSOS:

– Cães de físico forte, geralmente de porte grande e gigante, próprios para guardar e vigiar.

ENXERGA:

– Colchão grosseiro, rústico, geralmente de palha. Cama pobre, rústica, catre.

– LESTO:

Que se move com desembaraço, ligeireza, que mostra agilidade, velocidade, lépido, expedito, rápido, apressado, ligeiro, ágil

SEIXO:

– Fragmento de rocha ou mineral, sendo também conhecido como pedra de rio, não passando o seu tamanho de alguns centímetros. No texto, porém, tratou-se mesmo de uma “enorme e perigosa

pedra”, ou seja, o petardo era muito mais do que um simples seixo, e o objetivo do atirador era o de matar ou, pelo menos, o de ferir gravemente.

VÉSTIA:

Vestuário, tipo de casaco ou jaqueta, que não se aperta na cintura.

RÚTILOS:

– O mesmo que brilhantes, chamejantes, cintilantes, luzentes, reluzentes, resplandecentes.

 

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Comentário pessoal:

 

O significado principal do Natal, uma festa marcadamente cristã, é o de relembrar e reverenciar o nascimento de Jesus Cristo, o Divino Mestre, o Doce Rabi da Galileia, a Luz do Mundo, a verdade, o caminho para o Pai e para a vida eterna. Deveria mesmo significar e reverenciar tão somente a sua vinda física a este mundo, um evento único que é comemorado ininterruptamente há mais de 1.600 ano por toda a cristandade, tendo sido escolhido para tanto o dia 25 de dezembro.

Afirma-se que os cristãos apropriaram-se, ou inspiraram-se em uma festa pagã denominada Saturnália, que acontecia em homenagem ao deus romano Saturno (Kronos na Grécia), o deus da agricultura. Tal festa durava sete dias, tendo início em 17 de dezembro. Era marcada por muita música, banquetes, danças, jogos, brincadeiras e troca de presentes. Como era usual nas festas pagãs daqueles tempos o final sempre degenerava em escandalosas orgias mundanas sensuais.

Também nessa ocasião da Saturnália, os romanos celebravam o solstício de inverno (no hemisfério norte); eles cultuavam o deus Sol (natalis invicti Solis, o Sol Invisto ou de Mitra), e as festividades tinham ainda um propósito de renovação. Atribui-se à Igreja Católica, digamos assim, a “invenção do Natal” no decorrer do Século IV, consoante ainda hoje o conhecemos, muito embora haja sido permeado por objetivos e motivações comerciais que o descaracterizam parcialmente.

Hoje, por sua vez, o presépio é um item decorativo de Natal e que encena o local do nascimento de Jesus Cristo. A sua montagem é uma tradição natalina importante e uma criação pessoal de São Francisco de Assis no Século XIII; busca representar com a maior fidelidade possível aquela “noite santa”, quando tudo e todos encaminham-se para o bem — ou deveriam fazê-lo –, quando em um paupérrimo estábulo ocorreu a vinda do Salvador, posto depois sobre uma manjedoura. Ali, diz o Evangelho, perante seus pais José e Maria, foi visitado e adorado pelos reis magos, pastores, e até animais e anjos. Releva destacar que naquela época não existiam os meios de comunicação de que dispomos hoje, e o presépio veio para suprir esta lacuna, permitindo às pessoas uma imagem vívida e figurada da maior efeméride dos cristãos e de todos os tempos.

Já a figura histórica do Papai Noel está diretamente relacionada com, São Nicolau de Mira, também chamado de Nicolau Taumaturgo, um bispo cristão que viveu entre os Séculos III e IV. São Nicolau viveu na Ásia Menor, mais precisamente na Anatólia (região que corresponde hoje à Turquia em sua parte asiática) e ficou conhecido por sua generosidade, distribuindo presentes aos pobres, e carentes, principalmente às crianças. Afirma-se que São Nicolau deixava moedas perto das chaminés das casas dos menos favorecidos, fazendo-o sob anonimato e durante a noite.

Então, se o primeiro e verdadeiro Papel Noel era assim, bondoso, generoso e anônimo, qual seria ou é a relação entre o “bom velhinho” dos nossos dias e Jesus Cristo? A relação verdadeira não deveria estar somente no seu óbvio sentido comercial, tampouco na aparência, que é mera ficção, criada e difundida a partir do Século XIX. A relação verdadeira deveria centralizar-se nas obras e nos gestos de bondade de um antigo bispo de origem turca, conhecido, como vimos, como São Nicolau.

Na Bíblia, não existe menção ou regra clara sobre um Papai Noel, cabendo às pessoas encarar tal aspecto natalino de acordo com suas próprias consciências, nunca se esquecendo, todavia, de que o foco principal deverá sempre ser Jesus Cristo. Como quer que seja, hoje, o Natal é uma festa (pois, o nascimento de Jesus é uma festa) religiosa cristã, que celebra o nascimento de Jesus, que é a figura central desta data e do Cristianismo. O dia escolhido para ser o de Natal, 25 de dezembro, não está em qualquer dos evangelhos, mas foi instituído pela Igreja Católica, como vimos, por volta do ano 350, através do Papa Júlio I, sendo mais tarde oficializado como feriado.

Isso – a criação ou a invenção do Natal — foi uma tentativa, aliás, muito bem-sucedida, de facilitar a aceitação do cristianismo entre os povos pagãos. Apesar disso, alguns estudiosos insistem e dizem que Jesus teria nascido em abril e que a data foi substituída pelo Imperador romano Constantino para agradar os cristãos. Pouco me importa. Não é mesmo o mais importante. Salve, Jesus, o Cristo de Deus!

Então, um feliz Natal a todos vocês. E um próspero Ano Novo.

 

Araguari – MG, 21 de dezembro de 2023.

1 Comentário

  1. ELIANE disse:

    A Noite Santa, lindo demais esse texto. No Natal o mais importante é o aniversariante que é Jesus. O presépio é o mais forte porque lembra o nascimento de Jesus. As decorações de Natal estão a venda quase que no mundo inteiro por causa do comércio.

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