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A vulgaridade e a expressão artística – Perspectivas da Cultura

qui, 28 de novembro de 2013 10:36
Abertura Perspectivas da Cultura

Durante um debate em sala de aula, onde trabalhava a interdisciplinaridade com os alunos e enfocava justamente os fatos sociais que motivam a necessidade de se edificarem leis, foi levantada a afirmação de que o FUNK deveria ser proibido.Primeiro ponto: realmente as leis só deveriam ser criadas se houvesse um verdadeiro fato que necessite de uma regulamentação. As leis não devem ser criadas simplesmente para que os legisladores comprovem seu trabalho com quantidade ao invés de qualidade e necessidade. Este ponto já encerro aqui, pois minha abordagem será a afirmação sobre o FUNK e consequências.

Segundo ponto: justamente a afirmação sobre o FUNK e tema deste artigo.

A justificativa de alguns alunos que defendiam a proibição do FUNK é que as letras são vulgares e induzem sexo e violência.

Violência, tudo bem, vamos proibir, mas sexo????? Acho que grande parte do mau humor dos seres humanos é pela falta dele. (brincadeirinha).

Voltando ao assunto, sempre que ouço alguém comentando que: vídeo game tem que ser proibido; TV não presta; advogado é tudo ladrão; médico é açougueiro; todo político é corrupto; sertanejo é porcaria e o FUNK tem que ser proibido, me assusta.

A generalização da falta de conhecimento me preocupa, principalmente quando se confunde o instrumento com a utilização do instrumento.

Como disse meu grande amigo Adelino de Carvalho: se fosse proibir algo por um resultado de uma má utilização, deveria ser proibido a fabricação de facas.

Lógico que sim, pois a faca poderia ser usada para matar. Ou seja, proíbe-se pela possível utilização subjetiva.

Neste momento eu pergunto: QUEM ESTÁ ERRADO: O HOMEM OU A FACA?

Se fossemos por esta linha de pensamento, tudo poderia ser proibido. Imaginem se um dia eu ficar “puto” com a pergunta de um aluno e espanca-lo com o meu apagador até a morte. O apagador poderia ser proibido???

LÓGICO QUE O FUNK NÃO PODE SER PROIBIDO NUNCA.

Não é o FUNK que induz a vulgaridade sexual ou a violência, mas sim o mau uso que se faz, das letras, através do FUNK. O problema está no ser humano e não no estilo musical.

A vulgaridade parte dos seres humanos e não das criações humanas. As criações humanas expressam as angústias,  revoltas, os sentimentos, mas elas não se fazem conscientes e animadas. As expressões são o resultado da vontade do querer ser humano. Elas são o resultado.

Posso afirmar que todos os estilos tem vulgaridade em algum momento. Não só os estilos, mas as diversas áreas da expressão artística. Temos vulgaridade na dança, no teatro, nas artes plásticas, na música, enfim… e não é por haver vulgaridade que as artes devam ser proibidas.

O que existe é uma necessidade enorme de querer ser. De querer se mostrar. De querer ser conhecido. De querer ser famoso. De querer ser milionário. E neste jogo do querer ser, vale tudo. Pessoas não medem consequência de seus atos. Querem para si a força da Lei de Gerson “Leve vantagem você também” e partem para os “15 minutos de fama”.

Fortalecendo e ampliando este sonho, temos uma tecnologia ao alcance de todos. Hoje, pode-se produzir um vídeo clip e em segundos divulga-lo para todo o nosso globo terrestre, sem qualquer limite de tempo, espaço, moral, ética, cultura, qualidade, censura, enfim…

A intensificação do fictício mundo fácil e sedutor das grandes estrelas das artes e dos esportes hipnotiza uma população sedenta pelo luxo e pelo prazer.

Criamos semideuses e deuses através de nosso fanatismo tubular. Os “tubos infectos” que tanto ressalta o grande Marcelo Tas, realmente alimentam os sonhos de sermos admirados em cada lar.

Várias pessoas usam de todos estes meios para que a sua imagem, e não a imagem que contempla, esteja navegando pelas ondas radio televisivas. Infelizmente, nossa linguagem se adaptou, e muito, ao pastelão, ao burlesco, ao exagero, à comédia e ao agressivo. Não tentamos aprimorar a forma de nos comunicar, pelo contrário, tentamos, cada vez mais, torna-la vulgar numa busca de nos tornarmos diferentes.

NÃO SEI O PORQUÊ DE QUERER SER DIFERENTE.

Não temos que ser diferentes. Temos que ser o que somos. Se por natureza tivermos atitudes que nos dê um toque de diferença, temos que manter esta realidade, mas não devemos nos forçar a ser diferentes pelo simples fato do querer ser diferente. É justamente esta vontade, de querer ser diferente,  que nos faz exceder ao agir, ao pensar, ao expressar.

Realmente o FUNK não tem culpa e nem deve ser proibido pelo fato de pessoas utilizarem o FUNK para expressar a vulgaridade. Proibir o FUNK não irá coibir ou mesmo desarticular a ação da vulgaridade das pessoas que usam o FUNK nestes momentos. Estas pessoas simplesmente migrarão para outros estilos ou outras formas de buscar uma posição neste desejo midiático.

O que deve ser feito é repensar a valorização do ser humano na sociedade, bem como repensar o valor desequilibrado que damos às diversas profissões e ações humanas.

Porque veneramos, fanaticamente, estes semideuses que criamos em nossas fantasias e os valorizamos, pelo fato de estarem em nosso lar através de um simples click no botão de um controle remoto?

A nossa educação desestruturada é que faz com que a vulgaridade seja motivo de aplauso e contemplação.
PROIBIR O FUNK JAMAIS RESOLVERÁ O PROBLEMA DA FALTA DE ESTRUTURA HUMANA.

(*) Calvino.
Professor universitário, cientista jurídico, advogado, músico, microempresário e produtor cultural.

3 Comentários

  1. Carlos Cesar Luciano disse:

    Eu acho que a proibição apenas será uma forma de despertar interesse. O que realmente é necessário que se promova a cultura e educação de qualidade.

  2. Falcão Vasconcellos disse:

    Dedes tempos “imemoriais” da ditadura civil-militar de 1964, eu já me inssurgia quanto a assertiva / expressão de Gil-Caetano: “É PROIBIDO PROIBIR”, pois ela contem em si um proibição.
    A imposição dessa ou daquela maneira, de uma dada postura, visão, entendimento, etc. deve ser questionada sempre, e mesmo refutada.
    A tolerância, respeito ao diferente e a diferença, são fundamentos das culturas e civilidades, sem supremacias.
    Sem dúvida, nos falta e muito, especialmente para os ditos adultos, a pirática da brincadeira, algo sério e essencial as nossas vidas e realizações enquanto humanos.

  3. Josias Maia disse:

    Olá, Calvino gostei de suas observações e as achei bastante razoáveis. A experiência que tenho tido ao trabalhar com crianças na escola que curte muito o funk,tenho observado que elas desenvolvem um pulso musical repetitivo e tem grande dificuldade de assimilar um novo estilo de ritmo musical. A proibição não é a opção e sim oferecer,aquilo que já é lei! música na escola.

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