Ficha Técnica – Efeito colateral
ter, 13 de junho de 2017 05:17
Sexta-feira, 9 de junho. É minha terceira noite no Hospital de Clínicas da UFU. A quarta desde a transferência. Ao meu lado, estão Willian, 16 anos, e Alexsandro, 30, todos com seus acompanhantes em suas cadeiras de plástico. Aqui, formamos o que chamamos de “time do corredor B”. Entre nós, gritos, sussurros, balanço das macas, carrinhos com medicamentos e outros sons indecifráveis. O único objetivo é sair com o sabor da vitória. Pois bem, segue o jogo.
Cheguei no hospital na quarta-feira, 7, após passar a noite na UAI (Unidade de Atendimento Integrado) de Uberlândia. Um tour pela saúde pública. Foi meu primeiro passeio de ambulância, mas percebi que a visão do passageiro e do motorista é um tanto mais privilegiada. Falso (literalmente) camisa 9, fui atingido por um grande (também literal) goleiro numa dividida aérea. Na casa de apostas se dividiam entre quem levou a pior. A joelhada atingiu-me na barriga e provocou sangramento na região do fígado e baço. Hemorragia interna. Medo, aflição, dor, fala desconexa, falta de ar, tontura. Fui recebido direto para a ala de cirurgia geral.

Uma sensação similar àquela de junho de 2014
Sem conseguir falar ou movimentar, comecei a observar a forma das lâmpadas. Retangulares, quadradas, redondas. Tantas formas diferentes que lembravam-me uma mensagem similar ao que senti em junho de 2014 com o gol do alemão Khedira, aos 28 do primeiro tempo, no Mineirão. “Não temos para onde correr”. A diferença é que ali havia uma mão a apertar, o endereço do meu afago. Tem gente que nasce para jogar futebol, outras para ser mães, em todos os sentidos.
Voltando à turma do corredor “B”. Willian cortou o tendão do pé ao subir em um vaso sanitário. Alex sofria de inchaço no cérebro. Deixou o campo para a enfermaria antes do apito final para o lugar do carismático seu Zé Geraldo, que completava 20 dias ali após cair do cavalo. Enquanto isso, os médicos apareciam-me com um universo de números. “O que representam, doutor?” Nesse jogo tem de tudo. Soro, exame de sangue, glicose, raio-X, ultrassom, tomografia e um bocado de injeções. Apesar da gravidade inicial, a cirurgia foi descartada e tudo isso não era nada se comparado às histórias de outros jogadores.
Em junho, “Ficha Técnica” completa sete anos desde que meu irmão sugeriu-me a ideia. Curioso foi que, em cada momento, apesar da distância de mil e tantos quilômetros, senti como se ele e nosso anjo da guarda estivessem ali. Lembro da alegria ao entrar na redação para uma coluna no jornal. Desde então, os textos nascem daquilo que vi e/ou vivenciei. É a primeira vez que escrevo de uma maca de hospital, e de semana em semana tenho a certeza de que cada palavra não passa de um efeito colateral.
*Recebi alta no dia seguinte, sábado, 10 de junho
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Amo demais!!! Saudades primo! Orgulho sempre de vc!
Emocionante! Foi como estar ali no corredor B