Ficha Técnica – Entre bombardeios e fogos de artifício
qua, 5 de abril de 2017 05:54
Era uma vez uma terra fria e sombria, de vastas planícies e reservas florestais, conhecidas como os pulmões do Velho Continente. Disseram que foi o solo preferido de vikings suecos, os quais teriam fundado o primeiro Estado da região. Era o maior entre tantos outros em expansão territorial. A sociedade mudava, mas a potência permanecia. O povo tinha tudo em suas mãos, inclusive o poder de levar o primeiro homem ao espaço. Até que o tempo passou, e a ambição de respirar novamente no topo do mundo ditou o ritmo para o futuro. Os campos de batalha deram lugar a um indecifrável balcão de negócios.

A um ano da Copa, Rússia é alvo de atentado terrorista
*Reuters
Há três anos, a Rússia sediava os Jogos Olímpicos de Inverno. A cidade escolhida foi Sochi, curiosamente, o principal cenário do imaginário coletivo dos russos por ser um destino de verão, o único ponto sem neve daquele vasto território. Com permissão para ironias, era como se levassem a Copa no Brasil para a cidade de Manaus entre tantos outros lugares onde o futebol detém maior dimensão. O investimento foi de 51 bilhões de dólares, superior a todos os jogos realizados, além de 20% de tudo que a União Soviética e, depois, a Rússia gastaram com seu programa espacial. A verdade é que era muito mais que uma competição esportiva. Tratava-se do evento teste para algo de prestígio ainda maior, a Copa do Mundo de 2018.
Ambos os eventos seriam o alicerce fundamental para o presidente Vladimir Putin resgatar o brilhantismo de uma nação prejudicada ao fim da Guerra Fria. Ex-agente do serviço secreto da URSS, que por anos influenciou a política nacional, Putin colocava ambas competições na ponta da caneta como vitrines de uma nova sociedade. Os cálculos superavam os R$ 28 bilhões da Copa no Brasil, a mais cara da história. Entretanto, o líder tinha ao seu lado alguns dos principais mandatários do mundo para bancar a campanha e as obras com dinheiro de petróleo, gás natural, minérios e diamantes. Na eleição para a sede do mundial de 2018, os russos bateram Inglaterra, Espanha, Portugal, Bélgica e Holanda, todos que precisavam de muito menos para realizar a competição.
No capítulo “Arquivo Morto”, do livro “Política, Propina e Futebol”, o jornalista Jamil Chade resume o resultado daquela eleição. “Foi apenas a consequência de uma estratégia para recuperar anos de glória”, da União Soviética primeira campeã européia em 1960, ao ouro olímpico contra o Brasil de Taffarel e Romário em 1988. A partir do anúncio da sede, construíram-se estádios cobertos para escapar do frio, ajustaram o calendário com o das principais ligas europeias e inundaram os clubes, patrocinados por parceiras da Fifa, com jogadores estrangeiros como Vagner Love, contratado por 9 milhões de dólares na época. Mencionar as manobras para a escolha do mundial, no entanto, era tabu.
Durante as investigações sobre compra de votos, foi constatado que os russos destruíram todos os computadores utilizados na campanha. Indagados, alegaram que uma falha no sistema de informática havia “limpado” todos os e-mails trocados entre cartolas e dirigentes. Em resposta, a Fifa “reagiu” encerrando as investigações, porém o caso despertou o interesse da Justiça da Suíça e dos Estados Unidos. Após as prisões de dirigentes da entidade, incluindo o ex-presidente da CBF, José Maria Marin, o então presidente da Fifa viajou para a Rússia. Ali, tinha a garantia de que ninguém seria preso, tampouco extraditado para os EUA. Blatter anunciou que nada tiraria a Copa das mãos dos russos e, enquanto o mundo pedia sua prisão, Vladimir Putin declarou que o parceiro de negócio merecia o Prêmio Nobel da Paz.
Na última semana, a Rússia foi alvo de um atentado terrorista em São Petersburgo. Até então, são 11 mortos e quase 50 feridos. O presidente russo é um dos principais aliados do governo autoritário da Síria contra os rebeldes. Uma guerra civil que matou mais de 400 mil em seis anos, tendo os russos como um dos maiores autores. O cinza do céu daqui ofusca as cinzas das vítimas de lá. Em menos de dois meses, este será o lugar da Copa das Confederações. A sede escolhida para receber as principais seleções do mundo no próximo ano. Entre bombardeios e fogos de artifício, o ser humano corrompe aquilo que ele mesmo criou.
Baseado no livro “Política, Propina e Futebol” (Jamil Chade)
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Excelente texto.