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Ficha Técnica – Abaixo a “disputa da negra”

qui, 20 de outubro de 2016 05:51

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Não existia alternativa que fosse mais reproduzida para decidir uma brincadeira na infância. Venceu uma, perdeu outra. Houve infração? Puxaram o tapete? Culpa da hipermetropia, astigmatismo, da miopia ou de interesses alheios? Eis que surge um milagre divino, onde o desfavorecido passa a ser favorecido repentinamente. Nele, uma voz traduz a história do país para leigos. Na indecisão da legitimidade do resultado, mandaram disputar a negra. O desempate não poderia ter desfecho tão deprimente.

Das expressões mais banais que aprendi a atribuir desde os tempos de pique-pega, três cortes, bola de gude, mofinho e pedra, papel e tesoura, uma delas agora entrelaça um tabu em minhas cordas vocais. Anomalia escancarada, mas passada despercebida num preconceito enraizado nos ouvidos de quem a utiliza. Uma herança da escravidão, construída sob a dor e sangue de gente. Outro dia, ela voltou nas vozes de alguns torcedores brasileiros, amparados pela postura de cartolas piores que o palhaço assassino.

A arbitragem brasileira e a hipocrisia na hora de se manifestar

A arbitragem brasileira e a hipocrisia na hora de se manifestar

 

Insatisfeitos com falhas de arbitragem no campeonato, dirigentes de clubes passaram a proferir a palavra dos deuses do futebol, alegando a manipulação de resultados em favor de outro, lavando as mãos quanto ao destino das pelejas e até pleiteando a anulação de jogos. Eis o milagre. Quando a vítima do “roubo” é favorecida, ela se cala em louvação ao desencanto alheio. De fato, um hipócrita não requer de muita vergonha para ser identificado.

A manifestação emerge de diferentes cores, mas não foge de mais do mesmo. Andam sempre de lado, feito caranguejo. Melhor seria se todos restringissem seus protestos aos mandachuvas do futebol, responsáveis por todo o atraso que nos alerta anualmente. No comando da arbitragem, sai Sérgio Corrêa, entra o ex-coronel da PM Marcos Marinho, homem de confiança da presidência da CBF. Procure encontrar alguma relação próspera desta substituição com o esporte, e se prepare para mergulhar num mar de ilusões.

A cada dia, aprendo com os erros que construí nas entrelinhas da minha infância. O Brasil foi o país que mais recebeu escravos no mundo e o último independente das Américas a abolir a escravidão. Quando os senhores disputavam algo, o prêmio era uma escrava negra, um ato de misoginia e de estupro. Por isso, pensem bem antes de pedir essa disputa. A arbitragem brasileira nunca andou nos trilhos, muito pela falta de preparo e organização do futebol. É preciso ser claro e objetivo na hora de julgar e se manifestar. De outro modo, ficaremos sempre num jogo de polícia e ladrão.

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