Terça-feira, 03 de Março de 2026 Fazer o Login

Ficha Técnica – Especial Pelezinho, parte 2

qua, 3 de fevereiro de 2016 08:27

Abertura-ficha-tecnica

Inferno astral

Horóscopo, tarô da sorte, numerologia, mapa astral. Seja o que fosse não havia astrologia que confortasse aqueles homens de malha listrada. Ali, os gritos davam lugar ao silêncio, orações perdiam para a descrença, e cada jogada parecia uma sentença. Eram os 90 minutos mais frustrantes desde a festa de Carnaval no retiro da esperança.

Setembro de 1977. Na capa da edição de número 4331 do Jornal Gazeta do Triângulo, as memórias daquela época sombria voltavam à tona. Era tempo de eleições no Sindicato Rural de Araguari. Quem comprasse um Mercedes-Benz receberia dupla garantia, e todos estavam convidados a pagar o dízimo no primeiro domingo do mês. A partir do dia 24, entraria em cartaz o filme “Todos os Homens do Presidente” no cinema. Mas outra atração ganhava destaque.

Pelezinho (à direita) conduz jogadores do Araguari rumo ao campo de jogo

Pelezinho (à direita) conduz jogadores do Araguari rumo ao campo de jogo

 

“Hamilton Soares Alfaiate: Campeão da Bola, Campeão da Lei”. Esse era o título do texto do doutor João Batista de Sousa, fanático torcedor do Fluminense de Araguari, que lembrava a revolta quando quiseram unificar os times da cidade. Torcedores do Araguari Atlético Clube, como Omar Mujalli, e tricolores como Mauro Cunha, que “só faltou o andar abrir as veias de seu corpo para dar o sangue ao futebol”. Além disso, havia um ingrediente a mais, cujo protesto eliminava qualquer precedente.

“Pela rivalidade natural entre tricolores e estrelados, é que não ia ver o Hamilton jogar a bola redondinha que sempre jogou, pois um tricolor autêntico jamais pensaria em contribuir para os cofres estrelados”, manifestava João Batista, antes de reiterar – “Eu presenciei torcedores do meu time (Fluminense) pedindo aos céus a morte para Pelezinho dentro mesmo do gramado. Pudesse, o cidadão venderia sua alma para que desse um troço na espinha dorsal daquela camisa 10 vermelha”.

A estrela de Pelezinho ainda brilharia envergando as cores do Fluminense. Mesmo assim, ninguém mudaria o que aquele pé esquerdo um dia foi capaz de fazer. O homem que desafiou a fé alheia, polarizou uma cidade, e mesmo depois de aposentado, ofuscava lançamentos de cinema ou promoções de carros importados. Se a sua presença em campo era afago de um lado do círculo central, do outro era receita para um novo inferno astral.

Nenhum comentário

Deixe seu comentário: