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Um gole de dignidade

qui, 9 de outubro de 2014 00:01

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Jogadores do Botafogo protestam antes de partida no Brasileirão. Foto: *Divulgação

Jogadores do Botafogo protestam antes de partida no Brasileirão. Foto: Divulgação

Quando você mais precisou, eu estava lá. Fizemos da sua necessidade minha generosidade. Por alguns minutos, a fragilidade ganhou força. Cedemos ao valor de uma palavra. Mais vale um simples compromisso que a quebra de um sigilo bancário. Pois bem, segue o jogo.

Defendi suas cores como ninguém. Você fingia que me pagava, eu fingia que jogava – e ainda sobrava tempo para lhe fazer sorrir. Defendíamos as mesmas cores, ganhávamos os mesmos pontos, mas permanecíamos distintos na compra do mês. Melhor para sua cozinha hiper-mega-master, pior para meus filhos.

Assumir uma dívida é envolver duas realidades em um compromisso. Ainda assim, parece que muitos cartolas do nosso futebol são contaminados por falhas de memória após esses acordos. Há muito, milhares de jogadores, ex-atletas e funcionários de clubes se tornam vítima de uma epidemia do país dos “7 a 1”.

Entre os mais endividados, Flamengo, Botafogo, Vasco, Atlético-MG e Fluminense somam um débito equivalente à quase R$ 3 bilhões. Pior para o time, o jogo e aquele que, acredite, assim como você, também têm contas a pagar. Apesar disso, a realidade parece ter atingido o bom senso.

Em uma reunião essa semana, integrantes do movimento Bom Senso FC, CBF, empresas e patrocinadores decidiram a criação de um órgão fiscalizador dos clubes, os quais podem ser penalizados caso atrasem salários ou soneguem impostos. As punições seriam integradas à Lei de Responsabilidade Fiscal, abrangendo desde uma simples advertência, proibição de contratação ou até rebaixamento e exclusão de torneios. Antecipação de receitas futuras, utilizadas como garantia em negociações, caberia apenas a construção de ativos, como estádios e centros de treinamento.

A proposta ainda não foi aprovada, mas representa o início da busca pela valorização do trabalhador. Em terra de brancos, negros, pardos, mulatos, ricos e maltrapilhos, ainda alimenta-se preconceito. De fato, a seita para um futuro melhor não está nas inúmeras páginas decoradas num debate político. Seus ingredientes se escondem em cada pessoa, começando por um gole de dignidade.
vinheta pj

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