Artigo de opinião: A toga no chão do STF
ter, 31 de maio de 2016 05:57Diomar Freire
Formado em filosofia.
Adauto Lúcio Cardoso foi um homem além do seu tempo, verdadeiramente raro, ilimitada retidão moral, incapaz de acomodações, competente no que fazia e sempre sério no que dizia. Foi um dos maiores oradores na Câmara Federal nas décadas de 50 a 70. Líder da UDN, na época ele encarnou o espírito do parlamento, a alma da instituição democrática do Brasil. A tudo estava presente. E era solicitado. E era respeitado. E era ouvido. Não exagero ao dizer que Adauto foi um mestre e jurista. Na cátedra foi brilhante, mas o parlamento era sua vocação. A tribuna era sua paixão. Agressividade de dizer a verdade fazia parte da sua vida pública. Foi reeleito diversas vezes pelo estado do Rio de Janeiro.
Quando o presidente ditador cassou diversos deputados, reagiu. Ele era presidente da Câmara Federal e de confiança da revolução. Renunciou o mandato de parlamentar em solidariedade aos colegas. Era um político respeitado no parlamento e na área jurídica. O presidente o nomeou para o Supremo Tribunal Federal. Achou que ia silenciá-lo. Ledo engano!
O presidente Médici editou o decreto lei nº 1077, que estabelecia a censura de jornais, revistas, emissoras, livros e músicas. Verdadeira violação à Constituição que não admitia qualquer censura. Ele foi relator. O parecer dele foi contra. Submeteu ao plenário da Corte. Todos os ministros votaram contra o relator. Ele levantou-se, fez um discurso agressivo e disse: os senhores envergonham a Suprema Corte de Justiça, e que não se sentia mais à vontade para conviver com eles. “Os senhores não são dignos da minha convivência”. Levantou-se tirou a toga e jogou no chão do plenário. Os ministros ouviram em silêncio e não contestaram. Foi direto para a portaria do Supremo, despediu do porteiro e foi de táxi.
No dia seguinte, o jurista Evandro Lins e Silva declarou na impressa: “ele saiu do Supremo para entrar na história”. Sua atitude foi única, continua única e provavelmente nunca se repetirá”. Anos depois ele foi nomeado para o Supremo Tribunal Federal. O jurista Sobral Pinto disse que o ato de bravura dele merecia uma estátua com este poema: “O homem egrégio, de estirpe divina, alma de bronze e coração de menina”.
Alguns anos depois do episódio do Supremo, fui com o meu irmão no Rio de Janeiro e fizemos uma visita em seu apartamento na avenida Atlântica. Os dois tinham sido colegas vinte e quatro anos na Câmara Federal. Ele nos convidou para jantar no Copacabana Palace. Relembrou diversos acontecimentos que participou: suicídio de Getúlio, revolução de 64, oposição JK, renúncias na Câmara e no Supremo. Suas palavras fluíam com desenvolturas no conteúdo e na erudição clássica do Pe. Vieira. Percebi, naquela noite, que há pessoas que nascem para ser líder e outras que nunca o serão. Ele nasceu líder. Em determinado momento disse: “hoje sou um homem calmo, humilde, frequento a igreja da Glória e gosto de recitar Camões, mudam-se os tempos, mudam-se as verdades, muda-se o ser, muda-se a confiança, todo mundo é composto de mudanças”. Este soneto é dos Lusíadas (LVII). Eu perguntei: por que ministro, mudou seu verbo de fogo? Na Câmara Federal era uirapuru uma ave da selva amazônica; quando ela canta todas as demais aves da floresta silenciam para ouvir a beleza do seu canto, assim era o senhor na tribuna. Ele respondeu: “Deus fez que eu baixasse a cabeça”. Já de cabelos embranquecidos e me deixo tocar pela melancolia e posso dizer , as palavras de Simeão: Nunc dimittis servium tunn, domine.” Agora, senhor, despede do seu servo”. Ao despedir-se, disse vou para Áustria onde minha filha Eliana mora e é casada com o compositor Artur Moreira e mestre de piano naquele país da música clássica de Mozart e Schubert.
Duas semanas depois ele mandou de presente o livro Salgueiro do escritor e irmão dele Lúcio Cardoso. A obra é, na verdade, uma reportagem sobre a vida do morro carioca. Lindo romance. No livro ele fez uma linda dedicatória em latim: “Diomar, amicus sine cero. Amicita in charitate, et charitas in veritate”. Amigo sincero. Amizade na caridade e caridade na verdade.
A dedicatória escrita no idioma de Cícero ele a fez porque sabia que eu tinha estudado com os padres jesuítas durante uma década onde a língua era cultivada.
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Em tempos tão faltosos de moral , passo a conhecer esse corajoso HOMEM , dr. Adauto .
No céu , onde deve está , recebe aos que padeceram de justiça .
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