Rios voadores, por Inocêncio Nóbrega
qua, 11 de fevereiro de 2015 00:05* Inocêncio Nóbrega
No nordeste, e não é novidade, a crise hídrica promete recrudescer neste 2015. Os mananciais, inclusive os que abastecem as grandes metrópoles, vão diminuindo, assustadoramente, sua capacidade. Campina Grande, segunda maior cidade da Paraíba, e mais vinte outras sob sua órbita, assistem à Barragem Epitácio Pessoa, de 600 milhões de m3, cair sua vazão, numa desproporcionalidade ao consumo, ocasionado, entre outras coisas, pelo aumento da população e desperdício, apesar do rigoroso racionamento imposto pela Companhia de Abastecimento. Apesar do sofrimento, sua população ainda acredita nas providências do Céu e da Terra. Dependem de dois santos, para que a situação não se torne caótica: São Pedro e São Francisco. Orações e votos não faltam, mas nos parecem que suas ouvidorias não captam nossos clamores, ou será um “complot” contra os nordestinos? A Transposição anda pachorrenta, porém com alguma certeza de que chegará.
Puxando pela memória, na gestão do presidente João Figueiredo a previsão era de seis anos consecutivos de seca. Onde trabalhei, na Assembleia Legislativa da Paraíba, tive a prazerosa função de sintetizar, em ata, o que técnicos da antiga CTA (Centro Técnico Aeroespacial), ora DCTA, órgão do Comando da Aeronáutica, do Ministério da Defesa, descreveram, com muito conhecimento de causa, em sessão especial. Recordo-me de que a formação de nuvens, segundo eles, surgia a partir de determinada distância em relação ao litoral, no que dependendo dessa localização, em quilômetros ou milhas, ocorreriam ou não precipitações pluviométricas no semi-árido. À convite, explicaram o fenômeno da estiagem. E ficou nisso, estudos nesse sentido, tais como os dois celestes, se tornaram vagarosos.
Agora, ganham novas dimensões, se bem que voltados para a Amazônia. Pesquisadores brasileiros, combinados a um esforço internacional, investigam mecanismos físicos formadores de nuvens e chuvas. Instituto de Física da USP e Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, através de um avião a jato, equipado com sensores de alta tecnologia, que trouxeram da Agência Aeroespacial Alemã, sobrevoando à altura limite da estratosfera (18 km), desejam conhecer a “estrutura molecular das gotas de chuva e gelo dentro das nuvens”, e com isso o processo de precipitação. O projeto quer, ainda, entender o impacto das nuvens amazônicas nas chuvas da América do Sul. Relatam que diariamente as árvores amazônicas remetem para a atmosfera cerca de 20 bilhões de litros de água, fluxo esse que denominam de “rios voadores”, os quais, encontrando obstáculos na Cordilheira Andina, ocasionam chuvas no sul do continente.
* Jornalista
inocnf@gmail.com
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