Opinião: Ano novo; velhos livros, por Fernando Rizzolo
sáb, 21 de dezembro de 2013 00:00* Fernando Rizzolo
Nunca se falou tanto em como devemos viver o dia de hoje: desde frases soltas na internet a conselhos espirituais pregando que o ontem “já era” e do amanhã ninguém sabe. Parece que tudo nos indica que hoje, e só hoje, vale a pena viver. E é claro que isso é verdade, lamentarmos o dia de ontem não compensa e projetarmos o amanhã é válido sim, mas lembrando-nos sempre de que tudo pode dar errado. No entanto, nesses tempos de ano novo não há como resistir: temos de nos lançar com otimismo no futuro.
É interessante observar que a insistência por viver no passado me parece algo natural na alma daqueles que amam colecionar. No meu caso, meu escritório mais parece um pequeno museu; ali vivo no passado, os objetos possuem uma estrita relação com o antes, e me remetem ao futuro na inocente ideia de que um dia alguém da família continue o tal legado. Se o passado favorece o excesso de tristeza, no futuro, talvez, o gosto pelos objetos antigos será trocado por antidepressivos – que no futuro talvez estejam na água, assim como o cloro subsiste ao pretexto da purificação dos líquidos.
Na política não é diferente, me parece prevalecer sempre o receio do novo. Viver momentos políticos consagrados no meio popular traz segurança e minimiza o fantasma do desemprego, da inflação e da falta de oportunidade. Talvez isso explique a popularidade da presidente Dilma: aos olhos do povo, o dia de hoje – sim, aquele que deve ser vivido – está bom, e, portanto, brindemos o hoje! Não vamos mexer em time que está ganhando. Se nada der errado, o inconsciente coletivo popular continuará apoiando a política atual.
Mas o que teria de sentido adentrar o novo ano com reflexões perdidas entre livros antigos, peças de coleção de antiquários, com meu velho telefone (daqueles de discar) que pesa meio quilo, relíquia da casa dos meus avós? Eu diria que quase tudo. O ser humano odeia o novo, assim quando o remediável é saudável, cômodo, fica-se no continuísmo, e, na política, o dia de hoje é o indicativo mais preciso.
Assim, tão logo nos conectamos no facebook ou ouvimos que o excesso de passado é depressão e o futuro sinaliza ansiedade, vale nos aventurarmos a ler uma antiga enciclopédia, restaurar um antigo livro, e garimpar antiguidades nas feirinhas do Brasil e do exterior. Se o dia está bom e o país segue indo, sentar e planejar uma nova estante de antigos livros não é excesso de passado. Talvez seja, sim, uma anestesia do porvir, curtir objetos que um dia ficarão como uma pista de que jamais tomei antidepressivos… Agora, a grande pergunta: na política, o que seria do futuro se todos tomassem remédios e não fossem colecionadores? Bem, a resposta indicaria ansiedade, excesso de futuro. Portanto, vamos torcer… Tenhamos todos nós um Feliz Ano Novo!!!
* Advogado, Jornalista, Mestre em Direito Constitucional, membro efetivo da Comissão de Direitos Humanos da OAB/SP, ex- articulista colaborador da Agência Estado
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