O primeiro aeroporto
qui, 12 de novembro de 2015 08:10Coimbra Júnior
(*) Administrador de Empresas, especializado em Finanças. Trabalha atualmente na Via Travel Turismo. Criou a página História de Uberlândia no Facebook.
Após o Colégio dos Padres, atual Campus Santa Mônica, no alto da Vila Saraiva, na fazenda Campo Alegre, onde hoje está o bairro Progresso e o Lagoinha, mais precisamente na atual rua Antônia Saltão de Almeida, ficava o Campo de Pouso de
Uberlândia.
Tudo começou em 1935, por iniciativa do prefeito Vasco Giffoni. Uberlândia precisava de maior integração com o resto do país e, para isso, ele criou o Campo de Pouso de Uberlândia, com a colaboração do fazendeiro José Alves dos Santos, que cedeu as terras para a construção de uma pista de oitocentos metros e um belo hangar, que ainda continuava no mesmo local, até ser demolido em 1982.

Outra imagem do Aero Clube de Uberlândia, fundado por Tito Teixeira em 1938. Foto: Divulgação
Preparou-se uma grande festa para a inauguração e a cidade inteira compareceu. O voo inaugural foi realizado pelo aviador Doorgal Borges, integrante do Correio Aéreo Militar. Numa bela manhã de agosto do ano de 1935, ele decolou de Belo Horizonte em companhia do deputado estadual Fabio Andrada. O avião, um Waco monomotor biplano de dois lugares, pousou na pista de terra batida, após várias horas e duas escalas para reabastecimento, recebido em festa pela população da cidade.
Antônio Marinceck, vulcanizador competente, chegou a Uberlândia em 1937 trazendo a família e montou sua vulcanização na avenida Afonso Pena. Sua grande paixão era voar. Possuía um pequeno avião Taylorcraft PP-TBK com motor de 4 cilindros e 50 HP e, segundo os periódicos da época, realizava voos quase diários pelos céus da cidade, mesmo antes de ser brevetado.
Era tão aficionado que resolveu montar uma escola de aviação na cidade. Nascia a Escola de Aviação Marinceck e no final de março do ano de 1938 brevetou a primeira turma de treze alunos. Era a primeira turma de aviadores civis a ser brevetada no estado de Minas Gerais. Entre esses pilotos pioneiros estava o seu filho, Hélio Marinceck, de treze anos de idade, o mais jovem piloto do mundo que, devido à sua idade, não pôde receber o seu brevê. Apesar da tenra idade, Hélio era, além de aluno, instrutor da escola, face à sua grande habilidade. Ao seu lado, formava-se também o piloto mais idoso do estado, o memorialista Tito Teixeira, com cinquenta e quatro anos de idade.
A festa do brevetamento começou com a chegada da junta de examinadores, composta de dois oficiais militares, um representante do Aeroclube de São Paulo e um piloto civil acrobata do mesmo aeroclube. O povo da cidade, emocionado, ajuntara-se em volta da pista. Eram em torno de cinco mil pessoas.
Os examinadores ficaram encantados com a perícia de Hélio e fizeram questão de voar sob sua pilotagem.
Às quinze horas, Carlos Villela Marquez iniciou a sessão de brevetamentos. Ele era o melhor aluno. Em seguida, decolaram Aristóteles Soares, Amadeu Marchiori, Levino da Costa Pereira, Said Silva Neto e os outros alunos. Todas as decolagens, manobras de voo e aterrissagem ocorreram dentro da normalidade, assegurando boa impressão aos examinadores.
Havia uma aluna, dona Damartina de Freitas, esposa do industrial de móveis Domingos de Freitas, conhecida entre os amigos como Titina. Titina também fez tudo muito bem, mas viveu um momento de perigo na hora da aterrissagem. Felizmente, seu sangue frio e habilidade evitaram consequências trágicas. A cabeça do parafuso da roda esquerda do avião rompeu no momento da aterrissagem. A roda foi atirada a distância. Desequilibrado, o avião capotou. Titina, entretanto, conseguiu amortecer o choque e evitou um desastre maior. O aparelho sofreu apenas a quebra da ponta da hélice e o amassamento do leme de direção.
Foram brevetados nesse dia, além dos citados, Galileu Vilela Marquez, Eurico de Andrade Vilela, Antônio Poli, Jeremias Silva, Antônio Mendes dos Santos, José Camin Filho e Aristóteles Silva.
Após a qualificação dos pilotos, naquele mesmo ano, Tito Teixeira fundaria o Aero Clube de Uberlândia.
E quanto ao menino Hélio? Ficou tão famoso que, após uma festa da aviação ocorrida em Ribeirão Preto, em 1939, onde realizou vários voos, foi recebido no Rio de Janeiro pelo jornalista Assis Chateaubriand, presidente dos Diários Associados, considerado o pai da televisão brasileira e por Austregésilo de Athayde, presidente da Academia Brasileira de Letras. Foi homenageado, desfilou em carro aberto, em campos de futebol e voou com vários jornalistas. Participou de solenidades públicas, ganhou presentes, foi recebido por ministros e autoridades, inclusive pelo Presidente Getúlio Vargas. Vargas afirmou que voaria com ele sem fazer seguro de vida. Hélio se tornou Coronel Aviador pelo Colégio Militar do Rio de Janeiro.
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