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Nas pedras do Rio Uberabinha

qui, 5 de junho de 2014 00:02

ABERTURA DEBAIXO DO PE DE LIMAO
Por Priscila Diniz

Ali, debruçado nas pedras do Rio Uberabinha, eu vi a cidade crescer. Vi a estrada virar asfalto e o pasto dar lugar aos prédios e casarões do bairro Fundinho. Vi as crianças indo para escola e estas mesmas crianças se tornarem adultas. Eu vi a poluição e também um bom sistema de água e esgoto. Vi os funcionários públicos terem seus salários atrasados e também vi um novo prefeito regularizar essa situação. Eu vi a Copa do Mundo transmitida pela primeira vez na televisão, em 1970. Vi o rosto do Pelé e a taça Jules Rimet, atestando o melhor futebol do mundo, de campeão de verdade. Vi uma seleção guerreira, em meio a uma ditadura. Vi Médici querendo mostrar um país maravilhoso. Vi a vitória na copa espalhada pelo mundo, como representação de um país harmonioso enquanto a repressão e a tortura eram parceiras do governo.

Vi a boiada subir a estrada. Vi o cerrado perdendo seu espaço para a Souza Cruz, os ABC, a Cargill. Também presenciei momentos de vitória de jovens passando no vestibular da Faculdade de Engenharia, e tantos que se formaram na UFU. Estive na chegada dos que partiram e partilhei de lembranças de quem nunca mais voltou. Vi a vida melhorar para aqueles que vieram e trabalharam. Vi os carros descendo e subindo a ponte. Vi as ruas virarem avenidas. Vi os aviões chegando e voltando para as grandes capitais. Vi a cidade se tornando um grande centro comercial.

Naveguei nas histórias dos brancos, negros, pobres e ricos. Vi as pessoas fazendo caminhada e meninos jogando bola nos campinhos de palha de arroz. Vi cada tijolo que construiu as casas. Vi bairros nascendo e vi as lavadeiras com enormes trouxas, esfregando e batendo roupas, à beira do Uberabinha. Também vi grandes caminhões entregando máquinas de lavar em casas ricas. E vi Araguari crescendo e chegando perto de Uberlândia. Vi as escolas, as professoras e as universidades chegando.

É o Triângulo Mineiro como uma grande metrópole, mesmo que ainda não seja tão assim. Das minas que formam essas Gerais, são conquistas do povo mineiro que nos enchem orgulho da cultura e da formação da nossa região, como emaranhado de pequenos gestos, de gente como eu. Quando estas águas se juntam ao Oceano são mais outras trocentas histórias que se entrelaçam e carregam a cultura de tantos outros povos.     Hoje sento aqui nas pedras do Rio Uberabinha. Com a ajuda da bengala, desço pra cá. Aprendi tanto com as idas e vindas do povo. Vendo as águas passarem, eu vivo a minha história contando histórias que a correnteza traz.

Hoje, sou apenas mais um velho apaixonado por Uberlândia. Sempre refletindo sobre o meu amor, nas pedras do rio Uberlândia.

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