MINUTO DE OURO – 21 DE AGOSTO
sex, 21 de agosto de 2026 08:00Por que o Pix do imposto do Leão vai para o Banco Itaú?
Araguari, sexta-feira de manhã. O Jornal chegou! Você abre o aplicativo do banco, escaneia o QR Code do DARF, DAE ou DAS, confirma o Pix de R$ 6.767,67 e vê na tela: Recebedor: Receita Federal — Instituição: Itaú Unibanco S.A.
Por que o imposto que devo à União aparece atrelado ao maior banco privado do país? Puxei esse fio — e ele me levou a três números que, juntos, contam a história real da economia brasileira em 2026.
1. Por que o Itaú aparece no recibo do Leão?
A resposta é menos sinistra do que parece, mas não menos reveladora. O beneficiário do seu DARF continua sendo a Receita Federal. O Itaú funciona como instituição arrecadadora: recebe e liquida o pagamento, e depois repassa à União, conforme o Contrato RFB/Copol nº 27/2021, firmado por inexigibilidade de licitação (Processo SEI nº 18220.100208/2021-31), com vigência original até março de 2026 e valor estimado de R$ 181,4 milhões.
Não é exclusividade: Banco do Brasil, Caixa, Bradesco, Sicoob e Sicredi também integram a Rede Arrecadadora de Receitas Federais. Mas esses QR Codes específicos serem liquidados justamente numa conta operada pelo Itaú — e não pulverizados entre os bancos da rede — é um retrato em miniatura de como a arquitetura financeira do país concentra fluxo, dado e receita nas mãos de poucos grandes players. O contrato de 2021 explica a origem; sozinho, não explica por que a engenharia do Pix ainda trafega por ali em agosto de 2026 — ponto que merece mais prestação de contas do próprio sistema.
2. A Selic: alívio lento
Em março, o Banco Central iniciou o corte, tirando a Selic de 15% — patamar mantido desde junho de 2025 — para 14,75%. Em agosto, novo corte: 14,00%. É alívio, mas devagar. Para comparação, a taxa já esteve em 2% ao ano em 2020. Menos de seis anos depois, o crédito volta a custar sete vezes mais para o mesmo tomador.
Aqui a conta dói para quem empreende em cidade pequena: juro alto não pune só quem já está endividado — impede quem está saudável de continuar saudável.
3. O Brasil negativado
Segundo a Serasa Experian, 9,1 milhões de CNPJs estavam inadimplentes em junho de 2026, somando R$232,9 bilhões em dívidas vencidas — recorde da série histórica iniciada em 2016, alta de 16,67% sobre junho de 2025.
Frente ao total de empresas ativas no país — 25,4 milhões de CNPJs, segundo o Mapa de Empresas do Governo Federal —, isso equivale a cerca de 1 em cada 3 empresas brasileiras (≈ 35,8%) com dívida vencida registrada nos birôs de crédito. É uma aproximação ilustrativa, já que “ativas” e “inadimplentes” não são exatamente a mesma base, mas a proporção já dói sem precisar de casa decimal.
- E o Itaú? Lucro recorde
No mesmo trimestre do recorde de inadimplência, o Itaú Unibanco reportou lucro de R$12,4 bilhões, alta de 7,8% sobre 2025, com ROE de 24,3% (25,7% no Brasil) e valor de mercado de R$464 bilhões.
Não é coincidência de calendário, é engrenagem: quanto mais caro o crédito, maior o spread bancário — e maior a margem, mesmo com a inadimplência forçando mais provisões. O mesmo juro que empurra o pequeno empresário para o Serasa sustenta a rentabilidade recorde do banco que, volta e meia, também intermedia o Pix do seu imposto.
5. “Ainda estou aqui”
Não comparo o incomparável — o filme de Walter Salles fala de uma família destruída por um regime que sequestrou e apagou pessoas, e nenhuma métrica econômica se equipara a essa dor. Mas o Oscar de 2025 me deixou pensando: o que tornou aquela história universal foi a persistência de quem resiste a um sistema que tenta empurrá-lo para fora do mapa — e a recusa em desaparecer.
Guardadas as proporções, é a imagem que sobra ao olhar para os 9,1 milhões de CNPJs negativados: empresários que, entre o Leão que cobra, o juro que sufoca e o banco que lucra, ainda estão aqui. Ainda abrindo a loja, pagando o funcionário, quitando o DARF-DAE-DAS pelo Pix — mesmo sabendo que o troco dessa engrenagem nunca sobra para quem produz.
Não tenho solução mágica para o fim do texto. Só um convite: da próxima vez que ver “Itaú Unibanco S.A.” ao lado de “Receita Federal” no seu comprovante, lembre que ali existe uma arquitetura inteira de juros, contratos e concentração bancária — e que sua empresa, resistindo a ela, é notícia tão relevante quanto qualquer balanço trimestral.
Rodrigo Almeida Rodrigues – CEO Fundador Seu Bpo Soluções de Negócios
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