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Menino Absair pode ganhar capela no bairro Miranda

qui, 10 de julho de 2014 00:42
O corpo do menino Absair Martins Paixão, 12 anos, durante velório após viver sete dias de torturas amarrado em uma árvore. Foto: Arquivo Família

O corpo do menino Absair Martins Paixão, 12 anos, durante velório após viver sete dias de torturas amarrado em uma árvore. Foto: Arquivo Família

ADRIANO SOUZA – No próximo dia 19 de agosto completa 95 anos da morte trágica do menino Absair Martins Paixão, de 12 anos, que foi vítima de vingança amorosa contra seu pai, Beluino Nascimento, um sanfoneiro considerado boêmio que gostava de festas e mulheres. Como o caso é desconhecido por muitos, a reportagem da Gazeta do Triângulo foi em busca das verdades em documentos e testemunhos sobre esse crime que chocou a população em 1919.

Mais uma vez, para levantar essas importantes informações contamos com o apoio da competente equipe do Arquivo Histórico e Museu Dr. Calil Porto.

Absair — filho único do casal Melania Martins Paixão e Belmiro Nascimento ajudava o pai na produção de adobe e certo dia o menino foi liberado mais cedo do trabalho. Porém, no mesmo dia a pedido da mãe, Absair foi procurar o pai para que este lhe desse dinheiro que serviria para comprar arroz, pois não tinha nada em casa. Ao chegar numa residência onde o pai participava de uma festa, ele reprimiu o menino e nem mesmo ouviu o recado que trazia. Naquela ocasião o pai teria dito “para mandar a mãe não colocar a colher de pau em sua vida”. Uma das mulheres chamou Absair e entregou-lhe dinheiro sem que Belmiro pudesse ver, pois ele não aceitava esse tipo de atitude.

Hamilton Dias, 75 anos, relata bastante emocionado a tragédia ocorrida com seu tio Absair. O fato causou cicatrizes profundas na família. Foto: Gazeta do Triângulo

Hamilton Dias, 75 anos, relata bastante emocionado a tragédia ocorrida com seu tio Absair. O fato causou cicatrizes profundas na família. Foto: Gazeta do Triângulo

Ao retornar para sua casa, Absair foi abordado por Epaminondas Vander Colk, desafeto de Belmiro. Este homem capturou o menino com violência onde hoje é a praça Prefeito Elmiro Barbosa e o levou para uma região rural conhecida como Miranda (hoje bairro Miranda). No local, Absair teve seus pés e mãos amarrados no tronco de uma árvore. Durante seis dias houve sessões diárias de torturas contra o menino que teve olhos, língua e outras partes do corpo cortadas. Seu corpo foi encontrado após familiares seguirem sua cadela de estimação de nome Catita que, durante o tempo de tortura, vigiava o local impedindo o ataque de urubus no corpo esquartejado e sem vida.

A reportagem esteve ontem pela manhã com o aposentado Hamilton Dias, 75 anos, sobrinho de Absair. Ele, muito emocionado, confirmou o ocorrido, lembrando que sua mãe, irmã de Absair, tinha apenas dois anos quando ocorreu o fato que causou reflexos profundos na família, inclusive relatando que Melania – mãe de Absair, viveu durante muitos anos de doações da comunidade e inúmeras pessoas que transformaram o local de seu sepultamento como um ponto de orações. Atualmente seu túmulo, no cemitério do Senhor Bom Jesus recebe oferendas de alimentos por ele ter morrido com fome e, inclusive, há relatos de milagres atribuídos a Absair.

A reportagem esteve também com o secretário de Serviços Urbanos Humberto Merola que promoveu melhorias no cruzeiro – local onde o corpo de Absair foi encontrado no bairro Miranda. Segundo o secretário, haverá uma movimentação pela construção de uma capela para visitas. A área é particular e o proprietário, o aposentado Aloísio de Oliveira, 75 anos, deixou claro que fará a doação para a construção da capela. “Mudamos com meu pai para esse lugar em 1945 e esse cruzeiro estava aim,” comentou.

O criminoso

Epaminondas Vander Colk – autor das atrocidades contra Absair esteve preso durante 3 meses sendo solto logo após devido à influências exercidas por sua família.

13 Comentários

  1. antonio disse:

    Nossa não posso deixar de parabenizar o jornal por essa reportagem, pois sou morador de Araguari e muitas pessoas me perguntam sobre esse caso e eu nunca soube ao certo para comentar.Muito triste saber que uma criança foi torturada assim e o assassino cumpriu apenas 3 meses de prisão.Nossa cidade é cheia de historias veridicas maravilhosas, que poderiam ter um espaço para serem relembradas. Parabéns por manter viva a memória da cidade.

  2. ZENAIDE ABADIA DA CUNHA disse:

    MUITO BOA A REPORTAGEM, POREM ADRIANO FICOU ESTRANHO ABSAIR SER FILHO ÚNICO E TER UMA IRMÃ COM 2 ANOS NAQUELA ÉPOCA, PODE SER QUE ELE FOSSE O ÚNICO FILHO DO SANFONEIRO POREM TINHA IRMÃ POR PARTE DE MÃE, MESMO ASSIM, PARABÉNS O QUE VALE É LEMBRAR, O CRIME REALMENTE FOI CHOCANTE, PODERIA LEMBRAR O CASO DE KELLY RAIANE QUE ATÉ HJ CHOCA A CIDADE E NÃO SE TEM PISTAS DO CRIMINOSO, UM GRANDE ABRAÇO.

  3. Zé Vitor disse:

    Reportagem fantástica!

  4. Alzira Alves Correa disse:

    Lembrar do que o homem é capaz de fazer é passar para os jovens, o que não se deve fazer.
    Muito triste pensar que um ser humano pode chegar a tamanha abjeção.

  5. Adriana Rodrigues disse:

    Lamentável e triste caso,onde a impunidade fica a mostra!!!justiça nesse pais nao existe mesmo!!!

  6. bia disse:

    Fato muito triste da história da nossa cidade. Impunidade,e crueldade imperavam aqui na época do coronelismo. Vergonhoso, um criminoso ficar apenas 3 meses preso apos ter exercido tamanha crueldade com uma criança. Interessante é que no caso dos irmãos naves a justiça falhou novamente condenando pobres coitados inocentes.Araguari foi conhecida por muitos anos como a cidade dos que” manda quem pode”.Vidas de pessoas simples e humildes na sua realidade, que nem se quer foram lembradas por muitos anos. Lamentável que para alguns o status fala mais alto.Mas gostariamos de ver mais casos mostrados pelos meios de comunicação. Parabéns ao jornal pela reportagem.

  7. Mariana silva disse:

    Infelizmente ainda tem muitos casos aqui para serem desvendados,muitas mortes não esclarecidas!
    Acho que aqui ainda impera o “manda quem pode”,mas pago meu preço por rebelar com este sistema arcaico,injusto. Muito triste isto,e uma capela não resolve estas injustiças,só lutando para combater desigualdades sociais,discriminações,total descaso com os excluídos da sociedade,é que honrarão a memória deste e de outros tantos mártires desta cidade! Obrigada ao jornal por publicar meu comentário!

  8. Ana Paulla Cruz disse:

    Inscrivel, sempre lembro dessa história que marcou a cidade, o local até hoje onde foi morto ninguem comprou, e muito triste passar pela rua e ver a cruz e não lembrar desse episodio tragico que tivemos ah tantos anos.

  9. Nilza Terezinha de Melo disse:

    Fazendo uma observação sobre o comentário de Zenaide a respeito de Absair ser filho único e depois citar o sobrinho Hamilton Dias, filho da irmã dele(Absair), não quer dizer que ele era único, mas naquele tempo as filhas não saiam de casa para trabalhar e ela tinha apenas 2 anos de idade e era filha do casal com certeza. Mudei para Araguari em 02|1966 e era muito cogitado esse triste fato aqui inclusive quase todos que visitavam o cemitério Bom Jesus, iam até ao túmulo e muitos levavam comida e água e acendiam velas, aliás era costume sempre ter velas acesas lá. No Bairro Miranda onde fica o Cruzeiro, plantavam flores que eram cuidados pelos moradores da região e acendiam velas lá também, caso muito triste e como disse o comentarista e porque não empenhar sobre o caso de KELLY RAYANE, que está no esquecimento, não da família mas das autoridades competentes?

  10. Lilian Márcia Nunes disse:

    Ótima reportagem Parabéns a todos envolvidos.
    Uma pena que um crime tão bárbaro e o assassino que é um monstro não ter ficado preso e pagado pelo crime.
    O que aconteceu com ele depois ?
    Vai ser muito bom a construção da capela.

  11. Patrícia lima disse:

    Adorei conhecer melhor essa história, sempre tive muita curiosidade em saber. Obrigada pela reportagem!

  12. Valdivino Antônio de Almeida disse:

    O caso recente .que é o crime da menor Vitória Gabrielly em Araçariguama-Sp. .faz lembrar do caso Absair Martins Paixão. Pode ser vingança.

  13. Dolores disse:

    Só não entendi q no começo da reportagem fala q o menino Absair era filho único do casal;depois já aparece uma irmã q tinha 2 anos?

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