Mãe NÃO é tudo igual
qua, 29 de abril de 2015 06:21Em 2007, em uma pesquisa sobre os jeitos de se descrever a maternidade, a primeira questão que eu fazia às participantes era: “o que é ser mãe para você?”.
Muitas delas iniciavam – muito mais em tom de afirmação – me perguntando: “Você não é mãe, né?” Não, eu não era. Parecia óbvio para aquelas participantes que a pergunta só pudesse vir de alguém que não tinha conhecimento prático sobre o tema. Não para mim. Algumas rapidamente acrescentavam: “Um dia você vai saber. Só quem é mãe é que sabe”. Este era, sem dúvida, um jeito de responder; comum e aceitável em nossa sociedade, que também se constituiria em objeto da pesquisa.
Não era, entretanto, exatamente neste tipo de resposta que eu estava interessada. Porque não perguntava apenas o que era ser mãe. Não. O que motivava a minha curiosidade era o desejo de saber o que era ou como era especificamente para ela, a pessoa diante de mim. Que coisas ela teria/escolheria/poderia me contar? Que imagens de mãe viriam para a nossa conversa? Que funções essas imagens teriam? Que lugares seriam construídos ali, naquele momento da conversação, para mim e para ela? Que lugares restariam aos outros – mulheres (mães ou não mães) e homens (naturalmente, não mães) – aparentemente ausentes na entrevista?
Bem, eram nestas as questões que eu buscava refletir. Por quê? Porque avaliava e, persisto considerando, que essas coisas todas – nós, nosso vocabulário e os jeitos de se descrever a maternidade – são próprios do contexto: histórico, social, cultural, político, ideológico… Assim, nós não apenas descrevemos as coisas ao dizermos como elas são como também as produzimos e, em determinados contextos, sob formatos previsíveis, universalizantes, deterministas e limitadores.
Hoje, oito anos depois e às vésperas do Dia das Mães, aquele meu interesse investigativo permanece. Mesmo tendo soprado as velinhas de quatro anos como mãe. Mesmo tendo sentido na pele, na carne e na alma continuo, tantas vezes, sem saber.
Há momentos em que ouso dizer, com confiança, o que é ser mãe… Da Júlia. Como é ser mãe da Júlia. Momentos… Pois em outros recebo a visita da insegurança. Porque mudamos sempre – a Júlia e eu. E assim também o meu jeito de responder.
Se a incerteza às vezes me assusta, muito também ela me alegra. É sinal de que estamos, nós duas, vivendo. Que não estamos prontas – nem eu, nem ela – mas seguimos, na dança da vida, aprendendo. E a beleza reside exatamente nisto: em não haver receita. Porque se nem nós somos, mãe então… Não, não é tudo igual.
Renata Leite Cândido de Aguiar Moreira
Psicóloga
Mestre em Psicologia
Especialista em Trabalho Social com Famílias
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