Intolerância entre os brasileiros, por Bruno Peron
ter, 9 de setembro de 2014 00:02* Bruno Peron
Há muita intolerância no Brasil. É contraditório que, numa gleba de convívio na diferença, seus meio-cidadãos se comportem como se estivessem frente a alienígenas de mesma nacionalidade. Com esta afirmação, não me refiro somente às divisões econômicas entre ricos e pobres, que todos conhecemos. Penso naquelas diferenças que herdamos das tradições culturais do país e também nas que deixaremos à posteridade se não usarmos bom senso e razão para corrigir descaminhos e melhorar nossa relação com o outro.
Quando fui questionado sobre se havia dialetos e variações linguísticas no Brasil, estrangeiros surpreenderam-se com que falemos apenas uma língua. Há países tão pequenos como a Bolívia onde se falam três (aimará, quêchua e espanhol) e na Suíça quatro (francês, alemão, italiano e romanche). O Brasil conseguiu a proeza de integrar linguisticamente seu território, mas não tem sido capaz de reduzir o desconforto entre os próprios brasileiros.
O governo propõe políticas para combater o racismo, a homofobia e o preconceito religioso, mas observa-se nas conversas informais que a intolerância está enraizada em nossa cultura. Nelas, é possível notar que resquícios de uma sociedade escravista, católica e paternalista salivam da boca de todos os brasileiros. Mas é claro que estou falando um pouco sobre opiniões premeditadas – quando há intenção de ser intolerante em relação ao outro – e também sobre aquelas que se codificam e se reproduzem na sociedade.
Assim teríamos alguns exemplos esclarecedores: pessoas que se vestem diferentemente das outras recebem provocações quando andam na rua, migrantes entre estados brasileiros são frequentemente discriminados ainda que trabalhem naquilo que os nativos não gostariam de ou não saberiam fazer, religiões tipicamente brasileiras como o candomblé e a umbanda são hostilizadas por liturgias do Vaticano e por exorcistas de demônios.
Ainda que sem pretensão de esgotar a lista de exemplos de intolerância na sociedade brasileira, há poucas semanas vimos mais um contra nossa própria presidente. Dilma Rousseff recebeu vaias durante alguns de seus discursos públicos. No entanto, estejam os autores das vaias a favor dela ou não, Dilma foi eleita democraticamente para governar o país. Ela não subiu à presidência através de golpes ou de armas. Portanto, ela merece o respeito também daqueles que não votaram nela. Atos públicos como este só demonstram nossa pequenez cidadã e que o Brasil está dividido ideologicamente.
Esta divisão é tão perigosa que gera seres dispostos a fazer justiça com suas próprias mãos. Esses justiceiros ignoram a intervenção policial e procedimentos jurídicos para solucionar conflitos e tomam atitude contra o crime em seus bairros e suas cidades. O país tem visto casos como o de pessoas amarradas contra logradouros públicos e índios perseguidos pela ameaça do agronegócio. Estas ações mostram não somente intolerância entre brasileiros, mas uma crise institucional que não tem sido capaz de colocar o país em ordem.
Melhor que sair disparando balas contra o inimigo como acontece em USA Fora-da-Lei, o Brasil não será mais um país ocidental onde intolerância se confunde com indiferença. Temos o dever de trabalhar pela nação e de levantar aqueles que estão em situação pior que a nossa. Uma pessoa de cabelos verdes que caminha na praça e outra que professa uma religião diferente não despertarão nossas paixões mais rudimentares. Entre intolerância e indiferença, refiro-me a duas caras de uma moeda que só deveria servir para colecionadores.
Aqui temos um país de integração linguística, mas que está também a caminho de reconhecer as diferenças entre seus habitantes e o desejo que todos temos de viver bem. Há que pensar em que tipo de tratamento gostaríamos de receber porque somos tão particularmente diferentes de todos os demais, embora discretos e obedientes às convenções que integram o país culturalmente.
http://www.brunoperon.com.br
Nenhum comentário
Últimas Notícias
- Supermercados de Minas Gerais crescem 3,12% ter, 6 de outubro de 2026
- Circuito Municipal de Futevôlei encerra temporada 2026 com quarta etapa na Arena Bosque 26 ter, 6 de outubro de 2026
- Abstenções aumentam em Minas Gerais e Araguari está entre as cidades com mais abstenções do Triângulo Mineiro ter, 6 de outubro de 2026
- Competição reuniu equipes de destaque do estado nas categorias Sub-16 Feminino e Sub-19 Masculino ter, 6 de outubro de 2026
- Copa Regional Rural tem última rodada nesta terça-feira em Amanhece – LAFS ter, 6 de outubro de 2026
- Caminhada Rosa abre programação do Outubro Rosa em Araguari ter, 6 de outubro de 2026
- Araguari recebe 3º Festival Nacional de Comédia em novembro ter, 6 de outubro de 2026
- RADAR – 6 DE OUTUBRO ter, 6 de outubro de 2026
- Atividades envolveram uma rede de cerca de 200 empresários e incentivaram conversas sobre cuidado, escuta e valorização da vida ter, 6 de outubro de 2026
- DA REDAÇÃO – 6 DE OUTUBRO ter, 6 de outubro de 2026
> > Veja mais notícias...
