Grupo Gerar faz evento de incentivo à adoção com estudantes e profissionais
ter, 12 de junho de 2018 05:15por Tatiana Oliveira
O objetivo do evento é conscientizar os novos profissionais, principalmente a respeito dos direitos da criança e do adolescente
O Grupo Gerar realizou ontem, 8, o evento “Adoção, amor que se completa”em uma sala cedida pelo Instituto Master de Ensino Presidente Antônio Carlos – Imepac. Na sala, entre 9h e 21h, o visitante entrava em contato com uma exposição de fotos sobre família adotiva e crianças institucionalizadas e cartazes falando sobre abuso sexual. Todos tiveram, também a oportunidade de assistir dois vídeos sobre Adoção: Jurídico e família adotiva.

Grupo Gerar mostra o vínculo afetivo da adoção
Alunos do Instituto, professores e futuros profissionais participaram da explicação durante todo o dia. “O objetivo do evento é conscientizar os novos profissionais de eles terem em mente que a sociedade está sendo formada por famílias com um modelo diferenciado e conscientizar esses profissionais da importância de fazer com que eles cumpram esse direito da criança”, conta a psicopedagoga Fernanda Pelegrini Marques, membro do grupo.
Para o Gerar, os direitos da criança vão além de saúde e proteção. “As vezes as pessoas esquecem da última parte do que diz o Estatuto da Criança e do Adolescente:ela precisa de uma família. A proteção está ligada a uma família que venha suprir essa necessidade. É um vínculo afetivo de amor, de respeito que se tem pela criança e que se cria também”, coloca.
O grupo ressalta, ainda, que o vínculo afetivo não acontece apenas com famílias de sangue, mas também com uma família afetiva. “A gente acredita que a adoção nãoé um favor, não é uma boa ação. A adoção é um encontro de amor onde pais encontram filhos e filhos encontram pais”, relata.
Fernanda avalia o evento de forma positiva, mas diz que o assunto ainda aprece novo para muitos. “Embora seja algo tão antigo eu percebo que pessoas tem muito aquela consciência errônea de tempos atrás onde‘se pegava uma criança para criar’. Então quando você começa a apresentar o projeto, falar desse vínculo afetivo, parece uma surpresa para eles ver o lado bonito da adoção”, conta. “Tivemos algumas pessoas querendo se envolver mesmo, mas na questão de voluntariado. Eu considero positivo também pelo fato do Imepac ter apoiado, pois depois desse contato com o Instituto muitas pessoas nos procuraram”.

Menos de 1% dos pretendentes de adoção procuram um adolescente no Brasil.
O grupo é novo, mas já realiza ações na cidade. “O primeiro trabalho que realizamos foi conscientizando a rede da importância de ter um grupo de adoção. Porque nós sabemos que pra rede o trabalho fica muito pesado, para poder suprir todos esses pontos que a adoção exige”.
Fernanda compara a gestação adotiva com uma gestação de tratamento, quando a pessoa não pode ter um filho. “Porque são muitos passos e a gente sabe que para a rede ficaria muito complicado ajudar esse casal a ficar até o final dessa etapa. Então o grupo de apoio vem para ajudar esses casais, nós já atendemos alguns. Também vamos auxiliar as escolas a ter essa consciência adotiva e de prevenção, para que a criança não precise passar por esse processo de trauma também de parar dentro de uma instituição”.
Segundo ela, o trabalho, apesar de o Gerar estar em Araguari, ultrapassa barreiras. “Tem um projeto chamado Busca Ativa, que é quando você dá oportunidade para que essas crianças saiam das fronteiras da Comarca. Assim ela tem a oportunidade de conhecer outras famílias e de outras famílias conheçam também. Nós não queremos colocar nenhuma tipo de barreira, sabemos que começa aqui na Comarca que a criança está, mas ela pode ir um pouco além e a família também”.
Para a advogada Eliane Paulina de Oliveira Domingos, membro do Grupo Gerar, o trabalho é de conscientização. “O tempo todo nós queremos conscientizar as pessoasem geral, os adultos em si. Para as pessoas parece que é um assunto distante, mas não é.É uma realidade não só de Araguari, é no Brasil inteiro. Nós sabemos que tem crianças nos abrigos, nos lares e que estão totalmente descuidadas e elas são carentes mesmo desse afeto de família”, diz.
Esses casos acontecem principalmente com crianças maiores. “Elas tem uma noção profunda de que é quase somo se elas não tivessem o direto de sonhar. Sonhar com o futuro, sonhar com uma profissão, sonhar com uma família”, lamenta.
A história de uma adoção tardia
Um do vídeos apresentados no evento mostra a história de uma adoção tardia, em que uma família encontrou em Willian um filho e ele encontrou pais e um irmão. O documentário “Depois dos Sete – Uma Reflexão sobre a Adoção Tardia” faz parte da campanha “Adote um Pequeno Torcedor”. O vídeo retrata a realidade das crianças que têm acima de 7 anos e esperam por uma família.
Com chances mínimas de ser adotado, Williams repetia a si mesmo “minha esperança é a última que morre”. O pernambucano de 17 anos ainda tinha o sonho de viver em família. “Eu nunca tive carinho de mãe”.Ao alcançar a maioridade, Willian só sabia que deixaria o abrigo. “Eu já estava preparando para viver uma vida só. Eu ia trabalhar de garçom e tinha olhado uma casa. Mas eu continuava com muita vontade de ter uma família”, lembra no vídeo.
Ainda vivendo no abrigo aos 18 anos, Williams recebeu a notícia de que Viviane e Cláudio queriam adotá-lo. “Se eu tivesse deixado o abrigo eu não teria uma família”, comenta.
Menos de 1% dos pretendentes de adoção, contudo, procuram um adolescente nessa idade no Brasil. Contrariando os números, Williams chamou a atenção de um casal a mais de 2 mil quilômetros de distância do Recife. “Quando eu vi ele no vídeo, já senti que era o meu filho. Senti uma coisa muito forte, algo inexplicável. Eu vi o vídeo várias vezes e falei para o meu marido: encontrei o nosso filho”, lembra Viviane Nogueira, 45.
Ele retrata que hoje teve de volta seus sonhos. “Posso sonhar com uma profissão, ainda não sei qual vai ser, mas minha família está me ajudando nisso”, coloca.
Os números da adoção no país
Quando as crianças são negligenciadas ou abandonadas por seus pais biológicos, a adoção é uma alternativa para não privar o jovem de usufruir de uma relação harmoniosa e saudável num contexto familiar e social.
No Brasil, a maior quantidade de crianças e adolescentes está na região Sudeste, somando 2.268, o que equivale a 46% do Cadastro Nacional de Adoção – CNA*. De todas que buscam um lar no país, aproximadamente 65% possuem irmãos e 66% possuem algum problema de saúde, o que atrapalha na hora de serem adotados. O total de pretendentes que aceitam adotar crianças com irmãos é de 34.9% e o que aceita apenas crianças sem doenças equivale a mais da metade dos registro (64%).
A maior preferência dos postulantes é por bebês entre 0 a 4 anos (79,79%), o que equivale a apenas 1,78% das crianças que estão na espera. Ao verificar os dados do CNA, percebe-se que quanto maior a idade, maior o número dos que esperam ser adotados. Aproximadamente 80% dos cadastrados é entre 7 a 16 anos, o que equivale a 3.956 crianças e adolescentes. Enquanto isso, no cadastro dos postulantes, apenas 10,93% aceitam crianças entre 7 a 17 anos e 11 meses.
Aproximadamente 46% das crianças e adolescentes que procuram um lar são da região sudeste. Minas Gerais possui o segundo maior índice de crianças no CNA, com 624 registros, o que equivale a 12.63% do cadastro. O estado perde apenas para São Paulo, onde estão 23.66% dos cadastrados. Conforme apurado pela reportagem, o cadastro nacional é um só e qualquer postulante pode adotar crianças de todo o país.
O dado mais alarmante é em questão racial, onde apenas 47.19% dos postulantes aceitam crianças independente da raça.
*Os dados numéricos dessa matéria foram retirados do Cadastro Nacional de Adoção – CNA.
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