Ficha Técnica – Quem tem boca vaia Temer!
qua, 10 de agosto de 2016 05:16
De repente, o espírito olímpico aflora no peito. Vejo-me refém do súbito nacionalismo de cada esquina. Um aglomerado se forma na porta da loja. Na TV, um rapaz empunha a pistola e atira num alvo de onze metros. O desempenho é surpresa, ainda que ele seja um dos melhores da modalidade. Aquele aparelho tão comum nos lares brasileiros vira ouro no centro da cidade. “Vim comprar pão, mas não sairei dessa padaria até que essa luta de judô acabe”.
Numa fração de segundos, somos testemunhas diretas de como o esporte é apaixonante. Um júri popular, capaz de pulsar um povo carente de representatividade. Verdades ditas pelos corredores, mas ofuscadas nos quatro anos que se passaram, emergem do descaso – “Precisamos valorizar nossos atletas!”. Surge o primeiro exemplo mais palpável. Da Cidade de Deus, Rafaela Silva é ouro para o Brasil!

Num exemplo de contraste cultural, egípcia e alemã disputam bola no vôlei de praia
*Divulgação
A menina acostumada a subir o morro agora sobe no lugar mais alto do pódio. Um temporal se forma dentro dela. A brasileira vítima de racismo é o orgulho que habita as arquibancadas em meio ao ostracismo do esporte. Jogador de ping-pong é mesatenista. Ginástica artística é arte pura. O basquete masculino e as mulheres do handebol, do vôlei e do futebol gritam e encantam com sua garra. E pensar que após os jogos acompanharemos apenas quem se cala de frente a torcida.
Olimpíadas têm dessas coisas. No rugby feminino, teve até pedido de casamento de uma voluntária para a namorada Izzy, que é jogadora da seleção brasileira. Ela disse sim! Sob véu e calça, as mulheres do Egito estrearam no vôlei de praia. Nas piscinas, Michael Phelps comemorou a sua 19ª medalha de ouro como se fosse a primeira. Kosovo, que sequer é reconhecido pelo Brasil, mas sim pelo Comitê Olímpico Internacional, faturou seu primeiro título com o judô.
Como um atleta mal preparado que venceu a base da trapaça, o presidente em exercício não conseguiu se esquivar das vaias dos brasileiros. Tirania. Protestos das torcidas nas Olimpíadas é algo comum desde os jogos do México em 1968. Censurar isso é coisa de 1964 no Brasil. Atitude que destoa do espírito olímpico, da vontade de vencer e lutar por um país mais justo e menos machista, homofóbico, racista e xenófobo. Na Rio 2016, quem tem boca vaia Temer. Do contrário, não tem o que temer.
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