Ficha Técnica – Futebol ou cinema, cadê o filme da minha vida?
qua, 23 de agosto de 2017 05:42
23 minutos. Lembro que esse foi o tempo que uma barragem de mineradora precisou para se transformar num mar de lama pelo Rio Doce e devastar tudo que viu no caminho. Foi ainda o bastante para uma van atropelar uma multidão em Barcelona, e um carro avançar contra pessoas num ponto de ônibus em Marselha, na França. É também o suficiente para dizimar gente por sua cor de pele nos Estados Unidos, e para um jovem negro ser assassinado no Brasil. Extermínio que, no futebol, encontra na segurança e na organização o pano de fundo para isolar uma legião que por anos cultivou a inclusão.
Acordei com a notícia de que todas as empresas responsáveis pelo desastre de Mariana foram absolvidas. Estava Bárbara e eu à procura de um cinema para assistir “O Filme da Minha Vida”, de autoria de Selton Mello, em Uberlândia, quando fomos surpreendidos com a informação de que a trama não estaria em cartaz até então pela cidade. Diante disso, pesquisamos outras opções e a saudade da meia entrada apertou ao depararmos com o valor de 20 reais. O bilhete, no entanto, é irrisório se o programa fosse uma partida de futebol da primeira divisão. Cofre quebrado, bolsos revirados e a carteira revistada feito imigração em busca de um trocado a mais. E olha que o espetáculo nem é tão garantido assim.

“O Filme da Minha Vida”, de Selton Mello.
*Divulgação Vitrine Filmes
Saudoso João Saldanha, jornalista e ex-técnico da seleção brasileira, dizia que “O futebol é um ramo da arte popular”. Todavia, a cada bilheteria aberta, o esporte do povo deixa mais de ser dele. Somente para o segundo jogo da semifinal da Copa do Brasil no Maracanã, o Flamengo cobra até R$ 150 para os torcedores do Botafogo que quiserem acompanhar o time de perto. O valor é 275% maior que o praticado pela diretoria botafoguense para os flamenguistas na primeira partida no estádio Nilton Santos. Ora, medidas como essa apenas excluem ainda mais o velho torcedor e estimulam a rivalidade e violência fora dos gramados.
“O futebol é o ópio do povo e o narcotráfico da mídia”, dizia o saudoso “tricolor saudável” Millor Fernandes. Mesmo com os preços abusivos, os times conseguem manter a boa média de público. Quem pagou de R$ 45 a R$ 160 para ir ao Alianz Parque no último domingo, viu o Palmeiras ser batido pela Chapecoense, que vinha de goleada na Espanha para o Barcelona e derrota para o Urawa Red, no Japão. O torcedor é sempre o mais penalizado e, apenas quando o amor não é correspondido, que a voz do povo é lembrada nas arquibancadas. Enquanto o Flamengo cobra até R$ 360 na Ilha do Urubu, o América-MG e o Internacional alavancam a média de público e lucram na bilheteria com valores de R$ 10 a R$ 20 na Série B.
Por sinal, o Inter foi um dos primeiros gaúchos a abrir espaço para negros e operários. Quem recebe o benefício social do governo ou tenha renda de no máximo dois salários mínimos, paga um plano de R$ 10 mensal e, pela mesma quantia, garante presença em cada jogo do time de coração. Assim, o clube rema contra a corrente e recupera sua história de origem popular, enquanto o ingresso brasileiro se credencia como um dos mais caros do mundo. Um preço de show do Raça Negra, SPC, Molejo e Revelação juntos, em uma arquibancada monopolizada pela cor branca, comportada feito teatro num estádio padrão Fifa, e reconstruído por trabalhadores silenciados por credenciais que mais parecem muros sociais. De fato, como preferiria um cinema com “O Filme da Minha Vida” em cartaz.
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