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Ficha Técnica – Apoteose entre ruínas

qua, 22 de março de 2017 05:27

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Conversei com Júnior Baiano num evento pós-jogo comemorativo no estádio Vasconcelos Montes, em Araguari. Com ele, estavam Aloísio Chulapa, Dodô, Aldo Negretti e Edilson Capetinha. Marcelinho Carioca e Alex Dias haviam retornado para o hotel. Flavio Conceição, Esquerdinha e Athirson rumaram para Uberlândia. Há nove horas preparava o terreno para a tenebrosa resenha federal. Entre uma jabuticaba e outra colhida do pé, o amigo Adriano e eu limpamos piscina, varremos a casa, ajeitamos o som e alertamos a vizinhança. “Qualquer barulho, é a turma da seleção dos anos 90”. E também éramos nós, estarrecidos, junto deles, sob o mesmo teto, ao redor da mesma mesa, ainda que se duvidasse de tamanha façanha. Naquela ceia de saudosismo, a alegria transcendia apenas por estar vivo.

Com luvas de goleiro pelo Bremen, Júnior Baiano (à dir.) disputa corrida com Ronaldo pelo PSV, em 1995 na Alemanha

Com luvas de goleiro pelo Bremen, Júnior Baiano (à dir.) disputa corrida com Ronaldo pelo PSV, em 1995 na Alemanha

 

Multicampeão rubro-negro, são-paulino, palmeirense, no Vasco, Brasiliense e até no Shanghai Shenhua, da China, Júnior Baiano era a sinceridade personificada em 1,96m. Encarregado de neutralizar Zidane na final do mundial de 1998, era o guardião do célebre time vencedor da Copa das Confederações de 1997, com o jovem Dida no gol, seguido de Aldair, Cafú, Roberto Carlos, Flavio Conceição, César Sampaio, Denilson, Bebeto, Leonardo, Rivaldo, Ronaldo e Romário. Sobre o polêmico pênalti cometido em Marselha na derrota contra a Noruega na Copa, ele simplificou. “Apenas segurei a camisa do rapaz e ele se jogou. Eu não o puxei, mas a camisa esticou e o juiz caiu na dele”, decretou o ex-zagueiro, que ainda exaltou outro companheiro em atividade pelo Flamengo, onde foi revelado. “Dos quatro zagueiros atuais, Réver é lento, Vaz caiu de paraquedas e Donatti nem se fala. Se fosse o técnico do time, era Juan e mais um”, afirmou.

Companheiro de Ronaldinho, Okocha e Anelka no PSG, Aloísio Chulapa lembrou a trivela estilo “Ronaldinho do Paraguai”, como classificou, que consagrou Mineiro no gol do título mundial pelo São Paulo em 2005. Sorriso no rosto e simplicidade nas palavras. Lembrou a carreira e defendeu o “patrão” Rogério Ceni. Era o Rei do Danone exercendo seu reinado logo ali. Ao seu lado, o atlético e aposentado desperdiçado, artilheiro dos gols bonitos, Dodô, batia um papo com o ex-defensor araguarino e não menos importante, Aldo Negretti. Típico zagueiro-zagueiro, o número 4 do Benfica de Portugal, ídolo do Goiás, algoz do Vila Nova e finalista da Copa do Brasil em 2002, contra o Corinthians, deixando para atrás Fluminense, no Maracanã, e Galo, no Mineirão. Em tempos sombrios para o futebol local, Negretti é digno de uma homenagem diária por toda luz que emprestou ao esporte. Apenas uma atenção a mais do poder público para a primeira prateleira de nossos mitos vivos, como Ferreira, Bim e Quinzito.

Com um fardo ainda leve de 46 anos, Edilson Capetinha era um patrimônio nostálgico de 1,68m. Brasil pentacampeão do mundo. Bicampeão nacional, tri paulista, campeão carioca. Do Palmeiras da Parmalat aos dois gols contra o Real Madrid pelo Corinthians, com direito a caneta desmoralizante no francês Karembeu. Sobre ele, Júnior Baiano alertou – “Ou te ama, ou odeia”, ponderou, lembrando o desafeto Viola, corajosamente presente no jogo comemorativo momentos antes. A resenha seguia como um jogo dos sonhos em plena decisão de campeonato. Encerrá-lo seria um crime lesa-bola ao árbitro por intromissão exacerbada, desvio de conduta e ameaça para a sociedade no quesito estraga prazeres. Antes do apito final, passada em um restaurante, convite típico para o fim da madrugada em Araguari. O único dia que vi o estabelecimento liberar o freezer para as ampolas alheias (não vendem bebidas alcoólicas no local).

A noite chegou ao fim e os ilustres convidados rumaram direto para o Aeroporto César Bombonato, em Uberlândia. Edilson até pediu para adiar a passagem, sem sucesso. Rasos eram os anúncios sobre aquele dia. Pouco se aproveitou da presença daqueles personagens. Na prefeitura, silêncio. No estádio, vazio. Nada de domingo de futebol em família. Alunos de novas gerações continuam sem conhecê-los de perto, e as autoridades, a ter de aprender a lidar com grandes oportunidades. O público, maior privilegiado, é o último a saber das lendas que passaram por aqui. Caso descubra em tempo, são mais R$ 20,00. Desvalorização compreensível diante de uma cidade que deixa de olhar para seus próprios campeões. Evento para quem? Dos cobiçados Palácio dos Ferroviários e Câmara Municipal aos esquecidos Bosque John Kennedy, Estação Stevenson e Ginásio Poliesportivo, ergueu-se uma apoteose entre ruínas no estádio Vasconcelos Montes.

Agradecimento especial a quem fez a resenha acontecer, Adriano Souza

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