Do Grande Hotel para o mundo
qui, 10 de julho de 2014 00:03
O ano é 1926, na cidade de São Pedro de Uberabinha. Em frente ao Grande Hotel Central, um menino serelepe, com sua caixa de engraxate, chama a atenção de Izabel e Abigail Parecis, da Companhia de Comédia e Variedades Sarah Bernhardt, que está na cidade para se apresentar no Theatro São Pedro, que ficava na esquina das atuais ruas Felisberto Carrejo e Tiradentes.
Ele é convidado, então, para fazer uma ponta na apresentação da Companhia, onde aparecia de repente, dizia uma frase e depois saía do palco. Esse pequeno instante foi o suficiente para arrancar risadas da plateia que já o conhecia das brincadeiras que fazia quando tinha circo na cidade. Como ele mesmo dizia, “…eu tinha uns sete anos. Era o ‘Bastiãozinho`, usando um vestido comprido e com um travesseiro no bumbum e rebolando de braços com o palhaço. Aí todo mundo riu, todo mundo achou graça”.
Abigail ficou tão impressionada com o garoto que pediu permissão à família para adotá-lo. Trato feito, o menino passou a fazer parte da Companhia e saiu em turnê, como parte do elenco de uma de suas peças.
Em 1926, o garoto ingressa na Companhia Negra de Revistas, que estreia em São Paulo e excursiona por seis estados, inclusive o Rio de Janeiro. O Jornal Correio da Manhã menciona “um pequeno artista negro de seis anos que tem assombrado todas as plateias com a precocidade de seu talento” e o crítico Mário Nunes destaca sua atuação dizendo que ele “canta em vários idiomas com uma verve e espontaneidade extraordinárias”. Nessa época, ele deveria ter mais ou menos 11 anos mas como era muito franzino, era natural acharem que tinha pouca idade.
Sebastião Bernardo de Sousa, nome de nascença, fez seu registro de nascimento tardio, em 1930. Mudou de “Bernardo” para “Bernardes” e incluiu “Prata” no final do nome. Não tendo certeza da data de seu nascimento, escolheu 18 de outubro de 1917, data em que foi batizado. Acredita-se que nasceu, na verdade em 1915, em Uberabinha, filho da cozinheira da residência dos Prata com seu patrão. Talentoso na comédia e na arte de cantar e representar, não escapou da tragédia em sua vida pessoal. Sua mãe era alcoólatra e seu pai morreu assassinado a facadas.
Jardel Jércolis, amigo e produtor, achando seu nome muito grande para um artista e para seu tamanho, um metro e cinquenta centímetros, mas reconhecendo seu enorme talento, o apelidou “The Great Othelo”, alusão ao personagem negro de Shakespeare. Mais tarde, o apelido foi assumido como pseudônimo e abrasileirado para “Grande Otelo”. Muitos uberlandenses acreditam que esse nome nasceu, na verdade, da lembrança de sua infância como engraxate, na portaria do Grande Hotel.
O ator passou pelos palcos dos cassinos, dos grandes shows e do teatro. Trabalhou no cinema em “Futebol e Família”, 1939, e “Laranja da China”, 1940, e em 1943 fez seu primeiro filme pela Atlântida, “Moleque Tião”. Junto com Oscarito, participou de mais de dez chanchadas como “Carnaval no Fogo”, “Aviso aos Navegantes” e “Matar ou Correr”. Em 1942, participou de “It’s all true”, filme realizado por Orson Welles no Brasil.
Outra tragédia viria a abalar sua vida nessa época. Sua mulher matou o filho do casal, de seis anos de idade antes de se suicidar.
Em 1969, fez “Macunaíma”, sendo inesquecível a cena de seu nascimento. Como ator dramático, marcou presença em vários filmes, dentre os quais “Lúcio Flávio – Passageiro da Agonia” e ‘Rio, Zona Norte”. Em “Fitzcarraldo” (1982), do alemão Werner Herzog, filmado na selva do Peru, Otelo precisava fazer uma cena em inglês, mas resolveu falar espanhol. Quando o filme estreou na Alemanha, aquela foi a única cena aplaudida pelo público.
Em 1993, Grande Otelo morreu de enfarte ao desembarcar na França, onde receberia uma homenagem no Festival de Nantes.
Reverenciado como um dos maiores atores do século XX pela própria classe e em vários países do mundo, Grande Otelo não participou sequer da lista que elegeu Chico Xavier o “Mineiro do Século”. Em Uberlândia, o teatro com seu nome, localizado na avenida João Pinheiro, esquina da praça do Santuário Nossa Senhora Aparecida está em ruínas, esquecido há vários anos.

Grande Hotel Central, esquina da avenida João Pinheiro com praça D.Pedro II, atual praça Adolfo Fonseca, Uberlândia.
Foto: Divulgação

Theatro São Pedro, Uberabinha, ficava na esquina das atuais ruas Felisberto Carrejo e Tiradentes. Foto: Divulgação

Família de José Resende Ribeiro, o Juquita. Na frente da foto está “Bastiãozinho”. Foto cedida por Ana Luisa Braga

Ensaio do Teatro Experimental do Negro, na antiga sede da União Nacional dos Estudantes, com Grande Otelo à frente do elenco. Rio de Janeiro, 1944

Um das mais famosas duplas do cinema brasileiro, Grande Otelo e Oscarito viraram, inclusive, personagens de história em quadrinhos. Fotos: Divulgação

Foto histórica. Grande Otelo ao lado de grandes personalidades, Presidente Juscelino Kubitschek, Louis Armstrong, Pinxinguinha mais ao fundo e, escondido entre J.K. e Louis, aparece Braguinha. Foto: Divulgação

Grande Otelo em solenidade, conversando com o então Prefeito de Uberlândia, Virgílio Galassi. Foto: Divulgação
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(*) Coimbra Júnior é Administrador de Empresas, especializado em Finanças. Trabalha atualmente na Via Travel Turismo. Criou a página História de Uberlândia no Facebook
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