DIREITO E JUSTIÇA – 5 DE NOVEMBRO
qui, 5 de novembro de 2026 08:00
Dom Pedro II: Ele Queria Ter Sido Professor
*PARA USO ESCOLAR
Dom Pedro II – Criança Dom Pedro II — Adulto jovem
Dom Pedro II:
Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga foi o segundo e último imperador do Brasil, governando durante o Segundo Reinado (1840–1889) por quase 49 anos. Nascido no Rio de Janeiro, em 2 de dezembro de 1825, era filho de Dom Pedro I e Dona Maria Leopoldina. Assumiu o trono aos 14 anos de idade, por meio do chamado “Golpe da Maioridade”, após o caótico e turbulento Período Regencial (1831–1840), marcado por revoltas e motins que quase levaram o Brasil à desintegração territorial. Em 1843, casou-se por procuração com a princesa Teresa Cristina Maria, oriunda do Reino das Duas Sicílias, com quem teve quatro filhos, dois dos quais — Isabel e Leopoldina — sobreviveram à infância.
Dom Pedro II, um intelectual nato:
Dom Pedro II falava fluentemente diversas línguas, era entusiasta das ciências, das artes, da astronomia e da tecnologia. Ele mesmo registrou em seu diário oficial, em dezembro de 1861: “Nasci para consagrar-me às letras e às ciências”. O imperador frequentemente visitava escolas públicas e privadas, conversava com professores e financiava do próprio bolso bolsas de estudo para cientistas e artistas brasileiros no exterior. Criou o Colégio Dom Pedro II e incentivou institutos científicos.
Dom Pedro II queria ter sido professor:
“Se eu não fora imperador, quisera ser mestre-escola. Nada conheço tão nobre como dirigir jovens inteligências, preparar os homens do futuro”. Embora esta frase seja considerada por alguns historiadores como parte do folclore político ou uma romantização posterior, ela resume com perfeição o verdadeiro perfil intelectual e os interesses pessoais imediatos do monarca. Dom Pedro II enxergava a educação e a cultura como os únicos caminhos reais para o progresso de uma nação. Cumpria com suas obrigações de governo, mas o seu ambiente preferido estava nas bibliotecas, laboratórios e salas de aula.
Dom Pedro II: o maior estadista do Brasil
Dom Pedro II — ele sim, e nenhum outro — foi o maior estadista do Brasil de todos os tempos, reconhecido e respeitado de forma unânime em todo o mundo. Em suas viagens, autoridades e gente do povo prestavam-lhe monumentais homenagens oficiais e espontâneas. Mesmo exilado e morto, recebeu do governo republicano francês honras de chefe de Estado, contrariando protestos e atitudes mesquinhas e revanchistas do recém-instalado regime republicano brasileiro.
Estadista não é uma palavra que possa ser endereçada a qualquer um, mesmo que ocupe o poder por um período extremado. Nem de longe isto é suficiente para transformar um eventual político populista, oportunista e demagogo em estadista. Estadista é uma figura pública que demonstra uma habilidade excepcional no governo e na condução de assuntos de Estado, priorizando sempre o bem-estar e a felicidade da nação como um todo, a longo prazo e acima de interesses revanchistas, pessoais, partidários ou eleitorais imediatos e mesquinhos.
Um estadista, portanto, não é apenas um ocupante de cargo político (como um presidente, ministro, senador ou deputado), mas alguém que atua com visão estratégica e de futuro, ética e liderança transformadora. Seus principais atributos são: A) Percepção de longo prazo; B) Busca do bem comum; C) Grandeza moral e diplomática; D) Liderança em crises; E) Senso de moralidade, de boa-fé e de justiça; F) Condução firme, inteligente e prudente do seu povo.
Tais qualidades não faltavam a Dom Pedro II, e sobre ele eu ouso afirmar:
1º) Foi o melhor e mais culto de todos os governantes brasileiros;
2º) Exerceu com sabedoria e parcimônia o seu Poder Moderador;
3º) Firmou posição contra a escravidão e lutou por sua abolição;
4º) Introduziu rapidamente inúmeras inovações tecnológicas da época;
5º) Transformou o Brasil em potência mundial respeitada e acatada;
6º) Era parcimonioso com seus gastos e não desperdiçou o dinheiro público;
7º) Não perseguiu seus desafetos e permitiu uma imprensa totalmente livre;
8º) Os ministérios sempre se alternavam no poder sem sustos ou traumas;
9º) Mesmo exilado e injustiçado, amou e respeitou o Brasil até o fim;
10º) Impediu a então provável desintegração territorial do nosso país.
Eu não escondo a minha enorme admiração pessoal pela figura incomparável do Imperador Dom Pedro II. Se a História se repete — e isso de fato acontece —, que bom seria se voltássemos a ter um governante como ele foi à frente do Império do Brasil. Uma utopia? Talvez seja! Porém, pode ser que isso ocorra um dia e que as futuras gerações possam testemunhar o surgimento de alguém com tamanha envergadura.
Dom Pedro II reinou de 1840 até 1889. No início do seu governo, a família imperial — com o Imperador à frente, é claro! — recebia uma dotação anual de 800 contos de réis, um valor correspondente a 3% (três por cento) do orçamento nacional. No final, já em 1889, passados 49 anos, continuava a receber os mesmos 800 contos de réis, e o valor correspondia, então, a 0,5% (meio por cento) do orçamento nacional.
Reflitamos sobre isso sem fanatismo, ideologia ou partidarismo político e tragamos esses valores e percentuais para os nossos dias, em referência a todos os Poderes e níveis da federação brasileira, e veremos então o quanto de desperdício e de exagero existe com relação aos gastos públicos dos nossos dirigentes.
Em grande proporção, são gastos de dinheiro público mal direcionados, desviados, surrupiados e decorrentes de uma gigantesca, desastrosa e desnecessária parafernália burocrática estatal. Sim, pensemos todos nós nisso tudo e façamos, desde logo, uma tardia, mas inadiável justiça histórica a Dom Pedro II.
O Imperador jamais aceitou que lhe aumentassem a dotação pessoal e familiar, apesar das muitas iniciativas parlamentares nesse sentido. Dom Pedro II vetou todas elas. Ele era muito econômico consigo mesmo e extremamente cuidadoso com o uso do dinheiro público, fiscalizando receitas e despesas de forma pessoal e direta.
Com o advento da República, a coisa desandou desde o início, começando com o “deslumbramento positivista” dos novos dirigentes e culminando com a chamada “Crise do Encilhamento”, a primeira grande quebradeira do país, entre 1889 e 1891 (vide “A História; e o Brasil Não Aprende Com Ela” — Coluna DJ de 30.04.2026).
Aliás, entre muitos outros, eu acabei de ouvir ou de ler algures o pitoresco episódio que transcrevo a seguir e que, no meu entendimento, engrandece ainda mais a figura ímpar do Imperador Dom Pedro II:
“Certo Presidente do Conselho de Ministros (cargo equivalente ao de Primeiro-Ministro) pleiteou, em petição escrita, ao Imperador que os subsídios dos Ministros de Estado fossem generosamente aumentados. Ele recebeu o pedido e colocou-o embaixo de uma enorme fila de papéis prontos para despachos. Em contrapartida, ao receber um pedido de aumento para professores, colocou-o em cima da mesma fila de papéis e, logo em seguida, despachou-o favoravelmente.”
Não deu outra! Quando soube do caso, o mesmo personagem retornou e ponderou diretamente ao Imperador, em tom de queixa, sobre o motivo do tratamento desigual. Dom Pedro II ter-lhe-ia respondido assim (sem literalidade):
“Concedi um aumento aos professores na esperança de que eles possam formar Ministros mais capacitados e dedicados às coisas públicas do que os atuais”.
Bem, este suposto aumento, dado aos professores em detrimento dos ministros, é, na verdade, um mito popular ou uma anedota criada posteriormente, mas que continua sendo mencionada de quando em vez, por aqui e por ali. O mesmo ocorre com as palavras consignadas no início sobre o desejo de ter sido professor. A História se faz assim: com coisas verdadeiras, ou não, aumentadas ou diminuídas, tornadas lendas ou mitos.
Ressalte-se ainda que, para custear as suas viagens internacionais, o Imperador tomava empréstimos pessoais que ele pagava parceladamente, tirando os recursos exclusivamente da verba a que tinha direito. Não havia nas contas do Imperador aquilo que hoje nós costumamos chamar de “caixa preta”.
Dom Pedro II também era um mecenas, ou seja, uma pessoa de reconhecidas posses que protege artistas, homens de letras ou de ciências, proporcionando-lhes recursos financeiros ou patrocinando, de modo geral, um campo do saber ou das artes. Criou escolas e colégios, patrocinou inúmeros artistas, podendo ser mencionado, em especial, o músico Carlos Gomes, que, sem o seu real auxílio, jamais poderia ter ido estudar em Milão, Itália, onde compôs a fenomenal ópera “O Guarani”, conhecida universalmente e que engrandece até hoje o Brasil.
Dom Pedro II era um homem de múltiplos predicados. Poliglota, falava fluentemente ou compreendia muito bem mais de 15 idiomas; correspondia-se com os maiores expoentes da época. Na França, foi admitido como membro pleno da Academia Francesa de Ciências, honraria jamais concedida a estrangeiros, salvo a ele mesmo e a Pedro, o Grande, czar da Rússia. Vitor Hugo chegou a dizer dele: “Sire, vous êtes un grand citoyen, vous êtes le petit-fils de Marc Auréle” (Senhor, vós sois um grande cidadão, vós sois o neto de Marco Aurélio). Um elogio e tanto! Considere-se que o insigne escritor francês — autor de Os Miseráveis — abominava a realeza, mas rendeu-se ante a inteligência do nosso governante, relacionando-o ao grande Marco Aurélio, imperador e filósofo romano do século II. Isto de fato aconteceu, é histórico!
Dom Pedro II era humilde. Tanto quanto possível em face da sua posição. Tinha consciência plena de que teria sido muito mais feliz se pudesse escolher o seu lugar na vida. Afirmou sempre o seu desejo de ser professor. Professor! Uma classe profissional tão pisada hoje em dia, embora seja a mais importante para a consolidação dos valores nacionais e para a solidificação do progresso em todos os setores e níveis.
Por fim, foi banido injusta e covardemente, retirando-se do Brasil em uma madrugada e às escondidas; recusou receber a pensão polpuda oferecida pelo governo republicano. Sobreviveu com o auxílio de amigos e morreu pobre (05.12.1891, aos 66 anos), em Paris, onde se hospedava em um hotel barato. Sob sua cabeça, havia um travesseiro cheio de terra que levara do Brasil. Como despedida final, declarou o seu amor incondicional ao nosso país e desejou o nosso progresso sem rancor ou mágoa.
Dom Pedro II deu-nos muito mais do que nos possa ter tirado. Outros tantos tiram de nós muito mais do que nos dão. Chego mesmo a pensar que a República, proclamada daquela forma traiçoeira e ilegítima, com o povo embasbacado e assistindo de longe, foi, na verdade, um grande tiro pela culatra do Brasil. Éramos um país forte, estável, sério, respeitado e inserido entre as grandes potências do século XIX. No decorrer dos mais de 100 anos seguintes, ficamos para trás…! Por tudo isto, eu finalizo afirmando:
“Dom Pedro II foi e é o maior estadista que o Brasil já produziu”.
Araguari – MG, 05 de novembro de 2026.
Rogério Fernal .`.
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