Crise, vírus e máscaras
sex, 3 de abril de 2020 05:30Após 4 meses, desde o primeiro caso na China, passam de 25 mil mortes por Coronavirus (Covid-19) no globo. Destas, pelo menos 80 no Brasil. Indubitavelmente, deparamo-nos com a maior crise humanitária do século XXI.
O substantivo crise vem do latim crisis e do grego krísis; significa, momento de decisão ou mudança súbita; ocasião de distinção, separação, julgamento.
Na história da medicina, o momento crítico de uma doença correspondia a uma ocasião crucial de evolução para a cura ou para a morte. Em economia, a expressão pode ser usada como fase de transição entre um surto de prosperidade e outro de depressão. De qualquer forma, denota ocasião oportuna à crítica, momento em que a reflexão e as tomadas de decisões não são apenas apropriadas, mas necessárias.
Com efeito, segundo Hannah Arendt, toda crise comporta a possibilidade do retorno às próprias coisas. Nestes momentos, os homens são impelidos a colocarem novamente as perguntas primeiras e a refletirem sobre a própria essência ou razão de ser das coisas. E aí, por assim dizer: “as máscaras caem”, pessoas se revelam, realidades se desvelam.
Isto porque momentos críticos instam decisões éticas de primeira ordem e posicionamentos políticos igualmente importantes que revelam as concepções e valores que orientam as ações das pessoas e, notadamente, dos agentes políticos.
O Brasil, em face da problemática que envolve o mundo, neste momento, vê-se diante de um grande dilema: salvar economias ou vidas? O isolamento social ou o risco de contaminação? Pessoas ou empresas? Ciência ou senso comum?
Neste contexto, há aqueles que consideram que as opções políticas e pessoais devem caminhar na direção de priorizar a preservação das vidas, mormente dos mais vulneráveis. Do outro lado, há os que, como o presidente, defendem que o isolamento social (quarentena), seria uma resposta desproporcional à situação e que colocaria o país em um estado de recessão econômica. Para tanto, ignoram recomendações técnicas, evidências científicas e constatações empíricas de experiências de outros países.
Em favor desse posicionamento, Bolsonaro em entrevista concedida sem máscara ou proteção, REVELA (SE): “vão morrer alguns. Sim, vão morrer (…) mas não podemos deixar esse clima todo que está aí. Prejudica a economia”. Na perspectiva do presidente, bem como de muitos correligionários seus, o aparato estatal deve estar a serviço do capital, não das pessoas. Por isso, a estabilidade econômica é mais importante que a saúde pública e os direitos humanos.
Esta suposta defesa de um liberalismo econômico tem sido uma cortina de fumaça a tentar esconder a postura servil do Estado diante das corporações financeiras e sua negligência para com os que dele mais precisam e o sustentam. Mas, como estamos em crise, a cortina pari passu se desfaz, as máscaras desaparecem e realidades são trazidas a lume.
Permaneçamos reclusos, com ou sem máscaras!
Mauro Sérgio S. da Silva
Professor de Filosofia e Analista Educacional – Uberlândia
Doutorando em Educação (UFU)
Membro da Academia de Letras e Artes de Araguari
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