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Coluna: Neuropsi (11/09)

sáb, 11 de setembro de 2021 08:17

O suicídio em idosos preocupa?

O suicídio é uma tragédia que abala e afeta a família inteira com efeitos deletérios e duradouros. Sua causa é multifatorial, mas sabe-se que possui uma intensa relação com transtornos mentais, financeiros, dependências químicas, violência doméstica, discriminação e demais situações estressantes. A subnotificação do comportamento do suicida passa dos 50% dos casos, o que torna o processo de causa morte ainda difícil de se avaliar.

Por se tratar de um assunto delicado, que chega a ser quase um tabu, as famílias não conversam sobre essa temática, fazendo com que a busca por ajuda se torne mais difícil para quem necessita, dificultando a percepção dos familiares aos indícios de um possível suicida. Para ampliar a percepção da sociedade e fazer com que o assunto se incorpore aos diálogos em família, o Ministério da Saúde criou a campanha Setembro Amarelo, sendo que hoje acontece o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio (10/09). A campanha vem despertando e ampliando o interesse da sociedade em discutir o assunto e avaliar as possíveis situações de risco.

A campanha Setembro Amarelo salva vidas!

Em situações de pandemia, alguns idosos podem expressar dificuldades ao vivenciar situações de desamparo frente à instabilidade dos vínculos afetivos, econômicos e/ ou políticos, desencadeando angústia, tristeza profunda e solidão. Para aqueles que residem sozinhos, a vulnerabilidade emocional pode ser maior, podendo evoluir para estados depressivos ou mesmo depressão, cujo desfecho pode ser a ideação suicida, a tentativa de suicídio ou o suicídio propriamente dito.

No Brasil, os índices de suicídio têm aumentado, com atenção maior na população idosa. Dados do Ministério da Saúde, divulgados em 2018, apontam para a alta taxa de suicídio entre aqueles com mais de 70 anos. Nessa faixa etária, foi registrada a taxa média de 8,9 mortes por 100 mil nos últimos seis anos. A taxa média nacional é 5,5 por 100 mil. Durante a pandemia da COVID-19, a necessidade de adoção de estratégias de isolamento e distanciamento social podem ser emocionalmente desafiadoras para esta população. Particularmente durante momentos de isolamento social, a vulnerabilidade psicossocial, assim como o luto por perda ou distanciamento de seus entes queridos podem ser grandes e prolongados. O risco de suicídio, por sua vez, é duas a três vezes maior na população idosa e é frequentemente subnotificado. Portanto, os idosos constituem um grupo sensível à solidão e ao isolamento, pois costumam depender de forte apoio social, especialmente em tempos difíceis. Estudo realizado em Hong Kong, por exemplo, acerca do impacto de doenças respiratórias como a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS) mostrou um aumento do suicídio entre idosos e que este está relacionado ao medo de contrair a doença e de ser um fardo para suas famílias durante a epidemia.

Além do mais, conversas cotidianas como: “os idosos estão morrendo mais, então é melhor você ficar separado para não ser infectado”, ou ainda: “você precisa tomar mais cuidado ou pode infectar os outros” parecem aparentemente cuidadosas, mas podem reforçar o estigma. Os idosos estão mais propensos à asma brônquica, doença pulmonar obstrutiva crônica e resfriado comum, quadros associados à tosse persistente, dor de garganta e sintomas semelhantes aos da gripe, que podem ser facilmente confundidos com a COVID-19, levando à segregação social e prejudicando o bem-estar psíquico. Superlotação, negligência e falta de autocuidado em lares de idosos são outros fatores que também suscitam sentimentos de inutilidade e descartabilidade. É preciso, portanto, que profissionais de saúde e pessoas ligadas afetivamente aos idosos estejam alertas em relação ao risco de suicídio nessa população, devendo observar algumas situações:  se o idoso ficar mais quieto, mais isolado, apresentando maior desinteresse pela família, ou não querer mais atender as ligações ou chamadas de vídeo; se está se queixando de forma mais frequente de dores no corpo, falta de apetite, dificuldades para dormir ou falta de memória. Em algumas situações, queixas físicas, sobretudo se tiverem aumentado nesse período, podem ser sinais de depressão.

Em relação aos idosos que possuem qualquer problema cognitivo, sugere-se: orientação, principalmente em situações mais graves, e acompanhamento por cuidadores de confiança, uma vez que sintomas de irritabilidade, ansiedade, insônia ou mesmo quadros confusionais são mais frequentes em situações de quarentena.  Preocupação com a morte e o morrer, sobretudo quando acompanhadas de frases como: “eu estaria melhor morto”. Embora esse tipo de linguagem não seja incomum entre os idosos, geralmente evidencia sinais de angústia e deve ser acompanhado.  Observar a frequência de declarações que possam indicar que o idoso não se importa mais com a vida ou “não quer ser um peso para ninguém”. Isso pode incluir declarações como: “é melhor você não ter que se preocupar comigo”, “sinto que vivi por muito tempo”.

Decorrente desse alerta há que se ampliar a atenção aos idosos e ficar atento aos sinais que precedem o ato, tais como: apresentar sentimento de peso para a família, de culpa ou vergonha de forma inadequada, tristeza, desesperança, ansiedade, agitação e raiva, fazer a distribuição de bens, despedir-se, comer ou dormir pouco e ter atitudes arriscadas.

A prevenção é a forma mais eficaz de evitar que uma tragédia acometa uma família. Caso identifique um caso em seu seio familiar aja com paciência e busque acolher quem necessita de ajuda, não desmereça os medos e anseios do outro e nem mesmo repreenda. Busque ajuda profissional, por meio dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) ou instrua o familiar a entrar em contato por meio do telefone 181, do Centro de Valorização da Vida (CVV). O fator mais importante é que haja um diálogo, pois, o silêncio contribui para o agravamento do caso e também o crescimento do número de ocorrências.

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