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Coluna: Direito e Justiça (29/02)

qui, 29 de fevereiro de 2024 08:09

Direito e Justiça:

O Preço da Fumaça:

 

– A quem pertence essa fumaça que se dissipa no ar…?

 

– Um antigo caravançará no Oriente Médio.

O Preço da Fumaça:

 

Há muitos séculos o camelo é chamado pelos árabes de “navio do deserto”, e com toda razão; todavia, isso é uma outra estória.

Em um ponto central de uma das inúmeras rotas comerciais terrestres existentes no Crescente Fértil, mais precisamente entre as Cidades de Basra, ao Sul, e de Bagdá, ao Norte (elas ficam no atual Iraque, país infeliz e devastado pelas guerras e cizânias de toda sorte, mas isso também é uma outra estória), havia um caravançará, que é, segundo o Dicionário Aurélio, o “palácio das caravanas”, um grande abrigo no Oriente Médio, para hospedagem gratuita de caravanas e que, de ordinário, constava de quatro pavilhões em volta de um pátio, onde se encontravam caravaneiros vindos de diversos pontos.

Pois, bem! Já pelo início da noite, em um dos cantos do imenso pátio, sobre um fogo aceso, fumegava um grande caldeirão de sopa, cuja fumaça cheirosa e azulada encapava-se pelas frestas da enorme boca.

O pobre Salim, cameleiro de uma daquelas tantas caravanas, tirou do seu bornal um pedaço de pão duro e seco, aproximou-se do caldeirão e pôs-se a passá-lo através dos halos da fumaça, como que a pretender melhorar ou suavizar lhe o insosso sabor, impregnando-o com um pouco do cheiro daquela sopa.

Neste momento, foi que ele ouviu bradarem ao seu lado:

– Miserável! ladrão! Que Alá — bendito seja o Todo-Poderoso — te castigue, ó cão! Fartas a minha fumaça. Prendam-no.

Era Mustafá, um dos mais ricos chefes de caravanas de Basra, que assim vociferava. Salim foi cercado e rudemente seguro por dois ou três homens, sendo levado à presença de um velho Cádi (juiz entre os muçulmanos), que viera da capital Bagdá e que gozava de um imenso prestígio no país, possuindo, portanto, autoridade para falar e decidir em nome do próprio Califa.

Disse o Cádi para Salim:

– Tu reconheces, ó Salim, que tiraste do teu bornal este pedaço de pão duro e seco e que o puseste na fumaça que saia do caldeirão de sopa pertencente a Mustafá?

– Sim, Excelência, eu reconheço –, respondeu Salim, alquebrando-se respeitoso e temeroso, um tanto cônscio de sua própria culpa.

– E você, ó Mustafá — prosseguiu o judicioso Cádi –, desejas ser pago na exata quantidade, qualidade e valor da tua fumaça que foi apropriada indevidamente por Salim?

– Certamente que sim, Excelência –, disse o cúpido e avaro caravaneiro, já antevendo a sua vitória naquele caso –, pois que esse estouvado cameleiro apropriou-se do que legitimamente me pertence, ainda que a minha preciosa fumaça estivesse a esvair-se pelo ar. O que importa é que a fumaça era e é minha…!

O Douto e encanecido Magistrado ordenou, então, a Salim, que tomasse numa de suas mãos o seu pequenino saco de moedas, que tinha atado à cintura, e que o sacudisse bem, de forma alta e forte, fazendo com que as parcas e ínfimas moedas de cobre, existentes no seu interior, tilintassem bem alto. Tilintassem, para que todos os circunstantes pudessem ouvir o inconfundível e soante tom de moedas no ar…

Salim fez exatamente o que lhe fora ordenado, e as suas poucas e desvaliosas moedas de cobre tilintaram fortemente, podendo todos os presentes àquele insólito julgamento ouvi-las em alto e bom som.

Disse o Cádi

– E tu, ó Mustafá, ouviste bem o tilintar sonoro das moedas de Salim?

– Sim, Excelência, eu ouvi muito bem.

– Tens certeza disso, ó Mustafá? Pena muito bem no que me vais dizer, pois desta tua resposta irá depender a sorte deste teu caso com Salim.

– Por Alá, Excelência — bendito seja o nome glorioso e poderoso do Altíssimo — ouvi muitíssimo bem o tilintar das moedas, pois não sou surdo.

Ante uma afirmativa tão peremptória, sentenciou o Cádi:

– Em nome de Alá — Ele é nosso Deus clemente e misericordioso, e Maomé é o seu maior Profeta — e por delegação do nosso bem amado Califa, a quem represento e cuja autoridade para julgar foi-me concedida, e já que ouviste bem o tilintar das moedas de Salim, eu te digo, ó Mustafá, que tu estás inteiramente pago.

Pausou por um momento o Respeitabilíssimo Cádi e prosseguiu:

E, por estares pago, decreto que nada mais poderás reclamar de Salim pelo uso que ele fez da tua “preciosa” e “inaaproveitada” fumaça.

E, finalizou solenemente, fazendo-o com severidade e veemência:

– Todas estas pessoas que nos rodeiam testemunharam comigo que tu disseste ter ouvido perfeitamente bem o tilintar das moedas, quando agitadas por Salim. E, aprende, ó Mustafá, para todo o resto da tua desprezível vida, que todo aquele que se arvora no direito de cobrar de seu semelhante pelo uso esfaimado do cheiro de uma fumaça, que se esvai de um caldeirão a cozinhar uma sopa, deve contentar-se em ver-se inteiramente pago pelo tilintar de moedas que sai de dentro de um saco de moedas. Repito, estás pago, ó Mustafá. Vai-te, pois, embora deste lugar, fazendo-o enquanto podes e sem qualquer demora.

 

FONTE: Malba Tahan.

Adaptação pessoal que fiz das estórias do grande

e maravilhoso escritor brasileiro MALBA TAHAN.

 

Comentário pessoal:

 

Atrevo-me a dizer, sem muito receio de errar que, após esse emblemático e comovente episódio, ocorrido em pleno deserto aquele idoso, judicioso e respeitável Juiz Muçulmano teve ainda mais engrandecida a sua reputação de fazedor e aplicador de uma verdadeira Justiça.

O Ilustre Cádi demonstrou a todos, mas especialmente a Mustafá (um ser avaro e sórdido) e a Salim (uma pessoa (humilde e desprotegida) que a verdadeira, eterna e imutável Justiça é feita em qualquer tempo, em qualquer lugar, não importando as posses maiores ou maiores das pessoas envolvidas num caso concreto, tampouco com antecipação de vereditos e sem ouvir as partes e bem analisar as circunstâncias de cada processo. . Muito ao contrário do que hoje por aí se vê e se constata…!

A lição de moral a ser extraída deste apólogo e é a de que todo aquele que se acha no direito de cobrar pelo cheiro da fumaça que se dissipa de um caldeirão de sopa, posto ao fogo, deverá receber em seu pagamento o tilintar de moedas, cuja bolsa se agita no ar. Ou seja e traduzindo em bons miúdos: paga-se o nada com o nada…

Bem sabia o Douto Cádi que a verdadeira justiça tem que ser:

– Rápida, imediata e tempestiva;

– Razoável, sensata e proporcional;

– Serena, sem excessos, embora severa,;

– Útil; eficaz e no alcance de todos.

E, sabia principalmente, que a Justiça deve sempre ser permeada por uma boa dose de humanidade e de equidade, estando o Juiz atento as coisas reais e possíveis e não às supostas ou fantasiosas, sob pena de converter-se Justiça em puro e simples justiçamento.

Este interessante apólogo exemplifica o que é a Justiça verdadeira no seu melhor significado e na sua maior extensão, apresentando-nos um digno e impoluto Magistrado, um Juiz, um Cádi, que, independentemente das suas próprias convicções pessoais, sabia e soube fazer e aplicar com correção o que dele se esperava.

Eu digo parta encerrar:

– Ah, Deus, como aquele Cádi — e alguns outros tantos iguais a ele – estão fazendo falta aqui mesmo no Brasil e principalmente em nossos Tribunais Superiores…! Pois, ainda outro dia eu ensaiei mudar o n nome desta minha Coluna semanal DIREITO E JUSTIÇA, simplesmente porque já não vislumbro entre nós nem DIREITO e muito menos JUSTIÇA…! Também isto é uma outra estória…!

Araguari – MG, 29 de fevereiro de 2024.

Rogério Fernal .`.

1 Comentário

  1. Eliane disse:

    Não tinha que cobrar nada de ninguém, pois a fumaça não tem dono e sobe para formar as nuvens. É um lindo apólogo e uma lição de vida que o sábio fez o outro entender. Ele estava com os olhos completamente vendados até aquele momento.

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