Bombachudos, por Inocêncio Nóbrega
sáb, 8 de fevereiro de 2014 00:00* Inocêncio Nóbrega
Maltrapilhos, de alpargatas, calça e camisa rotas, chapéu de couro cru, cuja aba voltada para a testa, ostentando um bacamarte à mão, eis como se apresentavam homens, de porte rústico, salteadores de fazendas e cidades dos sertões nordestinos, na vigência da República Velha. Dicionarizados por cangaceiros, normalmente agiam quando perseguidos ou atacados. Pacificamente pediam víveres, para subsistência, aos ricos proprietários, que os deixavam acampados próximos de si. Só não gostavam dos “macacos”, policiais que andavam ao seu encalço. Viravam feras. Respeitadores, visitaram minha Soledade da Paraíba, à procura de um desafeto, no dia da morte de meu avô. A pedido de meu pai, nada fizeram no então povoado. Protegiam as mulheres indefesas dos excessos machistas.
As terras gaúchas, pelo menos nos extensos chãos de Cruz Alta, também tiveram os seus “fora da lei”. Produto daquelas décadas. Iguais aos companheiros nordestinos pelas mãos que seguravam o trabuco. Diferençavam no mais, a partir da vestimenta, uma bombacha (calções largos à altura dos joelhos, que se estreitavam em demasia nos tornozelos). Não eram nômades, geralmente ficavam aquartelados em áreas vizinhas às vilas, a fim de facilitar qualquer ação mandonista. Por vezes pagos por prefeitos, que os mantinham, com recursos da edilidade. Eram recrutados entre os mais perigosos da região. Agiam livres de possíveis coações policiais, em razão dos guarda-chuvas políticos de que desfrutavam. Aterrorizavam ruas, por onde andavam, exibindo suas armas, pondo em polvorosa a população local. Ataques sistemáticos só a integrantes da Frente Única, uma combinação de siglas partidárias do Rio Grande do Sul, ideologicamente dissidentes, que trabalhava para reverter a situação de extremada violência.
Essa preocupação chegou ao Catete. A imprensa de Porto Alegre denunciava, incessantemente, os graves crimes ali cometidos. A Justiça, um dos pilares da ordem institucional, estava atada em solo do Rio Grande. Magistrados eram compelidos solicitar remoções para outras Comarcas. A omissão à legalidade misturava-se ao tumulto eleitoral, ante as eleições presidenciais, para as quais o paraibano José Américo de Almeida era o candidato oficial. Desconfiava-se que o governador paulista, Armando Salles de Oliveira, fundador da União Democrática Brasileira, de lá estimulava a oposição gaúcha, contra seu filho, Getúlio Vargas, que encontrou no Estado Novo a alternativa para superar essa crise, fazendo sucumbir os próprios bombachudos.
* Jornalista
inocnf@gmail.com
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