Artigo de Opinião: Consumo em transformação
ter, 18 de maio de 2021 08:20
É um fato reconhecido que estamos vivendo uma verdadeira revolução na forma como adquirimos bens e serviços, com o notável crescimento do uso de ferramentas digitais e do comércio eletrônico propriamente dito. É uma tendência iniciada já há mais de uma década e que se expandiu de forma mais lenta no Brasil do que, por exemplo, nos Estados Unidos. Agora, o consumo digital não apenas cresce, mas segue uma trajetória considerada irreversível, à qual estamos atentos.
Segundo pesquisa do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), sete em cada dez empresas brasileiras já vendem seus produtos e serviços pela internet neste ano. Levantamento da Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm) aponta que, em 2020, as vendas on-line cresceram 68% em comparação com 2019, atingindo um faturamento de R$ 126,3 bilhões. Um salto de 5% para 10% de participação no faturamento total do varejo.
Estima-se que 20,2 milhões de consumidores realizaram pela primeira vez uma compra pela internet em 2020 e que 150 mil lojas passaram a vender também por meio das plataformas digitais. Sem falar nos milhares de profissionais, como nutricionistas, professores e educadores físicos, que oferecem seus serviços por redes sociais e adotaram plataformas de vídeo, por exemplo, para consultas e aulas. Por fim, dois dos maiores investimentos privados realizados em Minas foram em centros de distribuição da Amazon e da Dafiti.
As restrições impostas na pandemia, como fechamento do comércio e isolamento social, estão por trás desse crescimento repentino e expressivo, agindo como mola propulsora, já que o meio digital se tornou praticamente a única opção para adquirir alimentos, eletroeletrônicos, roupas ou mesmo móveis. Analistas de mercado, porém, apontam que, mesmo quando superada a pandemia, a experiência desse período já terá “mudado” o consumidor. Assim, a venda digital continuará em expansão e tomando, cada vez mais, o espaço do comércio tradicional em diversos segmentos.
A multiplicidade de plataformas de consumo digital é outro fator que impulsiona esse mercado. Antes, o comércio eletrônico estava restrito aos sites próprios das lojas e marcas, que tinham o inconveniente de demandarem o esforço do consumidor para chegar a eles.
Hoje, quem quiser vender pela internet, seja um indivíduo, uma loja ou uma grande marca, pode optar pelos chamados marketplaces, como Amazon, Mercado Livre, OLX ou Magalu. Ainda, pode utilizar as redes sociais para divulgar seu site ou utilizar as plataformas comerciais de Facebook, Instagram e WhatsApp para vendas diretas. Até mesmo montadoras de automóveis já trabalham com cenários nos quais as lojas físicas seriam apenas showrooms, com todas as negociações sendo fechadas por canais digitais.
Obviamente, essa tendência tem impactos pesados. Há segmentos que terão enorme dificuldade para realizar vendas on-line; outros terão de se adaptar e superar obstáculos banais como, por exemplo, informar corretamente o tamanho das roupas. As empresas se veem forçadas a, no mínimo, “digitalizar” suas vendas. Idealmente, devem passar pela “transformação digital”, que é um passo bem maior e mais radical. E há, claro, uma inevitável e perturbadora pergunta: onde, como e de que tipo serão os empregos gerados nesse cenário?
Como toda grande transformação, esta também exige capacidade de adaptação das pessoas e das instituições para que os ganhos superem ou mesmo eliminem as perdas. A pior postura, sem dúvida, é meramente se opor e tentar evitar que a humanidade permaneça em marcha, até porque não foi a pandemia que gerou toda essa transformação, ela apenas acelerou a chegada do futuro.
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