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Após vida dedicada aos doentes, Irmã Gonny deixou trajetória marcante em Araguari

ter, 15 de novembro de 2016 05:31

por Talita Gonçalves

Câmara prestou homenagem com denominação de rua no mês em que completou oito anos do falecimento da religiosa

Para fugir da Segunda Guerra Mundial, o casal Gerardus Antonius Thyssen e Petronella Van Den Beucken teve que abandonar a Holanda. O Brasil foi o destino escolhido, terra onde a filha mais velha deixaria marcas profundas por sua dedicação ao próximo e devoção. Aldegonda Petronella Thyssen, carinhosamente chamada de irmã Gonny, dedicou 34 anos de sua vida à Santa Casa, e foi por muito tempo um dos pilares de sustentação daquele hospital.

Irmã Gonny dedicou a vida ao cuidado com o próximo atrás da enfermagem

Irmã Gonny dedicou a vida ao cuidado com o próximo atrás da enfermagem

 

No mês em que sua morte completa oito anos, recebeu uma homenagem da Câmara Municipal. Os vereadores aprovaram a PL 149/16, de autoria do vereador Sebastião Joaquim Vieira – Tiãozinho (PRP) que modifica a denominação da rua Um, no bairro Ouro Verde, para receber o nome da religiosa.

A reportagem entrou em contato com Ana Thyssen Azevedo, a irmã mais nova de Gonny e a única dos sete filhos do casal que nasceu no Brasil. Ela conta que a família morou em São Paulo e em Belo Horizonte durante algum tempo. A diferença de idade entre as duas é de 14 anos. “Quando a Gonny saiu de casa eu tinha uns cinco anos. Minha lembrança dela é vaga. Tenho uma memória de quando estávamos em São Paulo, num Colégio, um orfanato, onde as freiras gostavam muito dela. Ela estava com mais ou menos 18 anos quando começou a manifestar interesse em seguir a vida religiosa. As Freitas queriam que ela ficasse lá, mas ela preferiu voltar para Belo Horizonte.”

Apesar de não se ter muitas memórias do convívio na infância, de todos os irmãos, Ana é a que mais se preocupa em preservar a história de Gonny. Guarda com cuidado as fotos, homenagens, recortes de jornais, alguns deles repetidos. Algumas imagens de Jesus Cristo esculpidas em madeira enfeitam as paredes da casa de Ana, presente do pai marceneiro para a filha que decidiu se tornar freira, um dos poucos pertences que ela possuía ao final da vida. A bíblia e o terço da irmã também foram preservados.

Ainda na juventude, quando Aldegonda virou noviça, passou alguns anos enclausurada. Depois disso, decidiu estudar Enfermagem. “Ela nunca namorou, nunca foi de ir a festinhas, aniversários. Sempre foi uma pessoa muito reservada (…). Fui ver minha irmã de novo quando eu estava com 14 anos. Então fui estudar em Belo Horizonte, no colégio que ela estava. Nessa época ela estava se formando,” contou.

Ana Thyssen guarda com carinho pertences e lembranças da irmã mais velha

Ana Thyssen guarda com carinho pertences e lembranças da irmã mais velha

 

Depois de formada, a religiosa se dedicou durante 34 anos à Santa Casa. “A Gonny era enfermeira chefe. Os diretores na época falavam para ela “nós somos os diretores, mas o que você decidir, está decidido. Ela fazia tudo, tudo. Trabalhava, o que ela resolvia, os médicos acatavam. Na época era ela e a irmã Jacira,” contou Ana.

Chegou a morar por alguns anos em uma ala, uma espécie de casa dentro do hospital, juntamente com outras freiras. A ajuda não se limitava a trabalho. A freira escrevia para parentes na Holanda, com uma situação financeira melhor, que mandavam dinheiro para atender às necessidades que surgiam. Levava o voto de pobreza a sério. Tinha uma vida simples e o dinheiro que recebia, era todo dedicado ao cuidado com o próximo.

Além do trabalho na Santa Casa, Gonny também atuava na capacitação de novos profissionais. Ministrava cursos de enfermagem em Araguari e cidades da região. Depois que os irmãos se casaram, os pais vieram morar em Araguari para ficarem mais próximos dela. “Dizem que os pais sempre tem um filho preferido. Acho que a Gonny era a preferida dos meus,” comentou Ana.

São muitas as lembranças de boas ações da irmã, que atendia com zelo qualquer doente que batesse a porta da Santa Casa. Ana relembrou o caso de uma enfermeira da Santa Casa que engravidou e tentou aborto, aos seis meses de gestação. A criança não morreu, mas nasceu com graves sequelas físicas e mentais. “Durante toda a existência, a Gonny ajudou a família. Sempre estava lá, ajudando, inclusive pediu para minha outra irmã que zelasse pela menina depois que ela partisse.”

Um casal da Gameleira veio para a cidade em busca de atendimento para o filho, ainda de colo, que estava muito doente. O bebê morreu e a família não tinha dinheiro para o translado. “A Gonny pediu que a gente levasse. Minha irmã emprestou o Fusca paro o meu marido, pegamos o bebê no caixãozinho no banco de trás e levamos para lá,” revelou Ana.

Em outra ocasião, um homem pediu a ela que o ajudasse a conseguir um emprego. Ele veio do Nordeste e não sabia ler nem escrever. Gonny teria conseguido através de amigos uma carroça e um cavalo para que ele pudesse trabalhar.

Aldegonda Petronella Thyssen morreu de câncer no ovário no dia 1º de novembro de 2008, aos 68 anos. “Fico aborrecida, porque ela era enfermeira, podia ter olhado isso. Acho que também houve uma falha do hospital aqui. Ela ficou doente por uns três anos. Ela foi para Belo Horizonte fazer uma cirurgia, mas estava em estágio avançado. A Gonny não era de fazer exames, não sei se pelo fato de ser freira, era muito reservada. Fez tratamento um tempo com um médico aqui que a mandou fazer regime por quase um ano, mas o problema nem era da alçada dele. Até que um dia, uma irmã nossa chegou no Colégio das Irmãs e falou que se eles não tomassem alguma providência, ela tomaria. Mas foi tarde,” lamentou Ana.

Irmã Gonny deixou sua marca na cidade de Araguari, pela formação de inúmeros profissionais na área de Enfermagem e por seu trabalho incessante na Santa Casa, um exemplo de humildade, bondade e amor ao próximo, cada vez mais raro nos dias de hoje.

6 Comentários

  1. Elisa Martins de Paula disse:

    Quero cumprimentar pela belíssima reportagem. Irmã Gonny em vida, fugia dos holofotes. No dia de seu aniversário até saía mais cedo da missa.
    Foi uma pessoa imprescindível para Araguari.

  2. Maria Rosangela Martins Almeida disse:

    O reconhecimento prestado a pessoas que trabalharam no silêncio é a grande prova que os frutos de amor por ela plantados, floresceram. Parabéns ao Gazeta do Triângulo por esta reportagem.

  3. Franklandia Ap.Ribeiro Machado disse:

    Conheci a irmã Gonny quando eu era menina e ela era tudo isso e muito mais.Lembro_me do quarto dela na Santa Casa,de uma mobilete que ela dirigia ,da catequese com as crianças.As sementes foram muitas… Recentemente estive com minha filha hospitalizada na Santa Casa e pude ver que os sonhos de Deus são maiores.Saudosa irmã ,sua vida pode ser resumida em uma palavra: amor.Araguari agradece a Deus pelo seu ministério aqui.Foi um privilégio para todos nós.

  4. Clara Nunes disse:

    Excelente pauta. Isso sim deve ser publicado.

  5. Katia Regina Martins Gomes disse:

    Trabalhei com ela por 7 anos na Santa casa, e me lembro no horário do almoço, ela dava de comer a alguns que não tinham, os chamando de carinhosamente de meus filhinhos. Merecida homenagem.

  6. Ranieri Helena disse:

    A irmã Gonny mudou a minha vida e a vida da minha mãe! Ela nos acolheu quando mais precisávamos, até no quartinho da Santa Casa ela já nos deixou morar por um tempo. Conhecemos a mãe dela antes da mesma falecer. Minha mãe, Rosa Helena, e eu só temos lembranças lindas dela. Minha mãe muito mais, já que ela se formou auxiliar de enfermagem pelas mãos da Irmã Gonny! Meu coração é pura e imensa gratidão pela Irmã. Que Deus a tenha no lugar mais lindo e belo do céu.

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