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Anti-vida (parte 1)

qui, 25 de junho de 2015 08:20

Airton da Cunha Ribeiro

escritor, graduando em História pela UFU (Universidade Federal de Uberlândia)

Sim o tempo reina; ele retomou sua brutal ditadura. E está-me empurrando, como se eu fosse um boi, com seu duplo aguilhão: “Vai, anda burrico! Vai, seu escravo! Vai, vive maldito!”. (Charles Baudelaire)

A leveza da grossa coluna negra que foge pela chaminé avisa que ali homens materializam o que sarcasticamente chamamos de progresso. O céu, antes visto por todos, agora encoberto por metáforas diz que a vida corre perigo. Está fadada a vários acasos, sendo gestada in vitro, oxigenando rumores de um futuro catastrófico.

As mãos que no passado semeavam flores, hoje semeiam tijolos. Imponentes estruturas se levantam do solo. Um paranoico mosaico de aço, cimento e dor que sem pedir licença, sulcam os céus, desafiando os limites da visão e eliminando a beleza bucólica do campo.

Nas vias, o sacrilégio do olhar foi abolido. Corpos em um eterno fluxo, que sob um ritual esquizofrênico debatem-se em busca da escravidão concedida. Na anti-vida, o tratado dos sentimentos morais dilacerou o corpo, transformando-o em estruturas desmontáveis. A alma fragmentada em pequenas partes montadas em uma linha de produção, moldadas sobre formas preconcebidas.

O dia, antes do homem, hoje da maquinaria, nasce sobre as formas e cores da aurora cinzenta metalizada. A náusea causada pelo mal estar do deslocamento constante, a velocidade das autopistas, buzinas, chiados, gritos de socorro, procurando ouvidos alheios para que, pelo menos por segundos, possam se solidarizar com dramas anônimos.

À noite, antes território de temores sobre-humanos foi purificado pela luz. Disciplinando-se sobre a clarividência do poder tecnológico entronou novos medos, entocados pelas esquinas e becos de vielas apertadas, a observar atentamente qual será a próxima vítima.

O corpo higienizado, a forma arquetípica, o limiar das possibilidades da perpetuação do eu sobre o nós. O corpo, a estrutura artificial do ser biologicamente construído exteriormente as suas vontades, vivencia um tempo que ironicamente não é mais o seu. A permissão da vida em tornar-se anti-vida, o nascimento chancelado, registrado com barras de códigos vem ao mundo sobre olhares de mil olhos. O corpo, o complexo de carne, ossos que se tornou a prisão da alma.

A alma, criatura doce e serena que foi aprisionada, é, sem alternativa, transformada em escrava. Da ternura deu lugar à angústia, da felicidade à dor, da complacência ao egoísmo. O que antes vida, hoje anti-vida.

Eis a obscura face da caminhada linear, ordenada e condicionada ao fatalismo da morte por uma asfixia moral combalida. A tóxica existência moderna sem liberdade, consciência, caminha sobre um labirinto sem aparentes saídas. Assim fazem-se pensar os arautos tirânicos confabuladores da anti-vida.

E assim se faz amém!

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