A militância de Dona Marilda
qua, 27 de setembro de 2017 05:37Artigo de opinião
Dona Marilda retorna para casa após um dia de trabalho intenso (leia-se com o sotaque mais paulista de um palestrino) na repartição pública. Dispensa o ônibus, a bike ou a salgada bandeira 2 do táxi mais próximo. Prefere seguir por si mesma, sempre com os pés no chão. O suor que escorre pelo rosto é o mesmo que transcende a alma de uma trabalhadora brasileira. É dia útil, de contribuir de alguma forma, mas não irão esperar-te. Atordoada, ela retira as chaves da bolsa, como se o destino assim se aproximasse. Como se cada superstição fizesse sentido e tudo girasse ao seu redor.
Nem o descabido horário programado para aquela noite atende à irregular rotina da senhora. Seu pai lhe abandonou quando tinha 7 anos. Desapareceu com uma amante e surgiu anos depois noutro país. Criada com a mãe em Minas, passou por maus bocados quando assumiu sua verdadeira paixão. Subir no pé de jabuticaba e descer a ladeira na caixa de papelão ficavam para trás ao sentar-se à frente da TV. Dos anos 70, ela encontrava sob a penumbra da ditadura uma luz em cores desbotadas. Certa feita, Fontana, Piazza, Brito e Tostão inflamaram seu orgulho celeste direto do estádio Azteca, no México. Ali, naquele eterno Brasil do tri mundial, estavam alguns daqueles que lhe fizeram sentir-se parte de uma conquista. Antes de trabalhadora, Marilda se formava torcedora brasileira.
Mineira, mas paulistana por inquietação de permanecer num único lugar. Uma nobre personificação da política do café com leite. Marilda sempre gostou de tudo em movimento, mas sempre houve algo lhe fizesse paralisar até o macarrão com açafrão e frango desfiado de domingo. Tinha quem lhe afrontava com a história de 22 homens atrás de uma bola, e outros marmanjos que se apresentavam tal qual especialistas de plantão. Mas a senhora sempre se manteve calada, de curtas, mas certeiras palavras. Futebol, para ela, era muito mais que as quatro linhas. Só não era melhor pela falta de identificação de gênero pelas cifras em prol de suas estrelas. Num ambiente sujo como esse, reconhecimento não se encontra em liquidação.
Eis que o destino colocou a mineira, de residência em São Paulo e descendência italiana, à frente do calor da Cidade Maravilhosa. Em uma viagem de férias com a família para o Rio, a senhora de riso fácil e pés no chão pisou pela primeira vez no estádio Mário Filho. Era o primeiro contato com a categoria sublime de Zico, Adílio, Nunes e companhia. A geral daquele templo do futebol era refletida nos olhos celestes de Marilda, que lembrava das palavras de seu contemporâneo compositor Aldir Blanc – “Quando as pirâmides do Egito forem esquecidas e o Coliseu não passar de um montículo de pó, ainda se falará do Maracanã”.
Nesta quarta-feira, 27, a nobre torcedora sequer cogita a petulância de deixar de prestar seu serviço público à frente da televisão. Seria um crime hediondo, quase uma afronta à si mesma. Cada memória foi apenas uma lição. Foi ali que aprendeu que quebrar o silêncio é um ato de coragem, enfrentar de cabeça erguida o monopólio rival é bravura, reerguer-se após um revés é perseverança e viver de acordo com a expectativa alheia é suicídio. Hoje, Marilda vive, e por isso chegará em tempo para empurrar seu Cruzeiro contra aquela apoteose rubro-negra que um dia viu militar no Maracanã, ainda que desconheça seu desfecho. O que ela sabe mesmo é que, independente do resultado, tudo se transformará em uma nova história para contar.
Nenhum comentário
Últimas Notícias
- Rede Sindijori entrevista Flavio Roscoe, candidato a Governador de Minas pelo PL qua, 30 de setembro de 2026
- Sete meses depois, encosta em JF segue sem solução ter, 29 de setembro de 2026
- Educação promove formação continuada para profissionais da Rede Municipal de Ensino ter, 29 de setembro de 2026
- América e União mantêm 100% ter, 29 de setembro de 2026
- Polícia Militar orienta para golpes de vendas falsas de veículos pela internet ter, 29 de setembro de 2026
- Com nova frente de terraplenagem, obras de duplicação avançam na BR-365 ter, 29 de setembro de 2026
- Inglaterra vence Portugal e conquista a Taça Aman na Panda Mito ter, 29 de setembro de 2026
- Vôlei sentado passa a integrar modalidades paralímpicas oferecidas em Araguari ter, 29 de setembro de 2026
- Amanhece vence duelo de invictos, e América domina clássico contra o Grêmio ter, 29 de setembro de 2026
- Duas pessoas morreram em acidente grave na BR-365 ter, 29 de setembro de 2026
> > Veja mais notícias...