A geração do vaivém
qui, 20 de novembro de 2014 00:06
Já citei, em crônica anterior, que meus pais trocaram os primeiros olhares durante o vaivém da praça Tubal Vilela, que naquela época, meados da década de 1950, se chamava praça da República. Lançando mais luz a esse belo período da sociedade, com um ar de ingenuidade, mas que deu condições para o nascimento de grandes revoluções culturais e de relacionamento como o movimento feminista, o rock e a bossa nova, o movimento hippie, o psicodelismo da década de 1960, reproduzo aqui uma crônica do grande jornalista e historiador de nossa terra, Antônio Pereira, que fez uma boa descrição do microcosmo dos costumes da juventude uberlandense.
“Ir ao cinema, para a rapaziada, não era apenas para assistir a um belo faroeste farto em tiroteio e pancadaria ou ver a continuação de um empolgante seriado. O bom era o flerte, o início de um namoro. Naqueles fins de anos 40 e começos dos 50, havia música na sala de espera do cine Uberlândia executada por uma orquestra com uns seis músicos. Dançava-se. Ao lado do cinema, havia uma bombonière onde as moças compravam balinhas, antes de entrarem para a sala de projeção, por uma janelinha. Eram deliciosas balinhas recheadas com doce de leite. Pouco antes do início do filme, a rapaziada circulava pelos corredores trocando olhares e sinais com as mocinhas. Se houvesse alguma correspondência, mal as luzes se apagavam, o rapaz assentava-se na poltrona ao lado. Deixava o seu braço encostar-se no dela. Se ela não se afastasse, tentava pegar na mão. E… Calma. Naquele tempo ficava por aí. Daí para frente, era jogar conversa fora: elogiar-lhe a elegância, o perfume, a beleza e convidá-la para um sorvete depois do cinema e passear na avenida. No meio do papo, se prometia um namoro sério. Não era muito fácil, assim, não. Isso custava muitos ingressos e muitos passeios no vaivém, onde, geralmente, se iniciava o flerte.
O vaivém na avenida Afonso Pena (da praça Tubal Vilela até a rua Goiás) era o charme daqueles tempos. Nessa fase, a troca de olhares era fundamental. Quanto mais discretos, mais promessas emocionantes ofereciam. A rapaziada perfilava-se sobre o meio-fio. Na avenida, a moçada ia e vinha. Os casais de namorados, já firmados, também participavam do ir e vir. Os mais idosos e os casados (marido e mulher), passeavam sobre a calçada, parando nas vitrines a ver as novidades, as coisas interessantes da Casas Pernambucanas, da Goyana — o Templo da Moda (do Cyro Avelino), do Mundo Elegante (do Alcides Helou), da loja Glória. A criançada rodeava os pipoqueiros à espera de ser servida. Era o romântico da época.
Os preconceitos, entretanto, faziam limitações. Os negros passeavam do outro lado. Para eles, não havia o flerte dentro do cinema, porque eles só eram admitidos no poleiro, em cima. Também não eram atendidos no Bar da Mineira, ponto de bate-papo mais charmoso da cidade.
A sessão preferida da moçada era a das seis da tarde. Todo mundo se vestia com a melhor roupa, os rapazes com os sapatos lustrados, brilhando. Lotava. Os casais que namoravam escondido (porque os pais não queriam) se encontravam no cinema, depois que começava o filme. As meninas guardavam os lugares. Se, eventualmente, acendessem as luzes no meio do filme, eles pulavam fora da cadeira e fingiam que iam lá fora. Era comum pai ficar no meio do povo que passeava na avenida, ao fim da sessão, para ver com quem saíam suas filhas.
Na praça da República (Tubal), também se fazia o vaivém. Os jovens circulavam pela calçada larga, do lado de fora. As meninas num sentido, os rapazes noutro. Os reencontros demoravam. Enquanto isso, no coreto, a bandinha do Barraca sapecava seus dobrados, valsas, xotes e, ao redor da fonte luminosa, a criançada com copos e garrafas tentava pegar a água colorida que jorrava.
O guarda Antônio, sempre vigilante, estava por ali. Alguma menina arriscava: “seu guarda, me dá uma flor?” e ele, ressabiado, olhando para um lado e para o outro: “só se for escondido. Eu não posso apanhar flor, não”.

Praça da República, atual Tubal Vilela e o calçadão do famoso vaivém. O grande telhado no lado superior direito é do prédio do Cine Theatro Uberlândia. Foto: Divulgação.

Avenida Afonso Pena, décadas de 1940/1950, mostrando a fachada imponente do Cine Theatro Uberlândia, do lado direito. Foto: Divulgação

Foto de uma época mais antiga, do Cine Theatro Uberlândia. Em cartaz, Robin Hood, estrelado por Errol Flyn. Foto: Divulgação

Guarda Antônio. Exemplo de um profissional que marcou época e permanece até hoje no imaginário das pessoas que viveram sua juventude nos anos 1950/1960, em Uberlândia
.
Coimbra Júnior.
(*) Administrador de Empresas, especializado em Finanças. Trabalha atualmente na Via Travel Turismo. Criou a página História de Uberlândia no Facebook.
3 Comentários
Deixe seu comentário:
Últimas Notícias
- Vale do Aço procura novas companhias aéreas qua, 18 de março de 2026
- Prefeitura de Tupaciguara intensifica cronograma de coleta de entulhos qua, 18 de março de 2026
- Com atuação precisa, bombeiros controlaram fogo na empresa Selecta qua, 18 de março de 2026
- Multas aplicadas durante o mês de março pela nova sinalização ficarão em caráter educativo qua, 18 de março de 2026
- Câmara discute melhorias urbanas e cobra ações na saúde durante sessão ordinária qua, 18 de março de 2026
- Expo Araguari 2026 terá shows nacionais e entrada gratuita todos os dias qua, 18 de março de 2026
- DA REDAÇÃO – 18 DE MARÇO qua, 18 de março de 2026
- Polícia Militar faz várias diligências após morte de jovem assassinado a tiros em Araguari qua, 18 de março de 2026
- LEVI SIQUEIRA COBRA AÇÕES E DADOS DETALHADOS DO PODER EXECUTIVO MUNICIPAL NO ENFRENTAMENTO À DENGUE qua, 18 de março de 2026
- Prefeitura de Cascalho Rico promove sustentabilidade através de projeto inovador na Escola São Judas Tadeu qua, 18 de março de 2026
> > Veja mais notícias...
Eu vivi em Uberlandia nos anos 1950, 51 e 52. Fui estudante na escola Dr. Manoel Lacerda. ainda existe alguem que se lembra de mim? era conhecida como a alema. Tenho um irmao que tambem assistiu aquela escola…..
favor de me escrever…..Ilse
era a menina alema la no Dr. Manoel Lacerda…..estudava com uma Carmen Rosa Eleuterio e mais outras. se voces me conhecem, favor de escrever para mim, por favor…….vivi em Uberlandia entre 1951 e 1954…..seria otimo se alguem se lembra de mim…..
parabéns ao site, amo historia de uberlandia poderia publicar fotos da familia zacharias resende. se tiver